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Dança

Última modificação : Segunda, 10 Setembro 2012 14:51


Etimologia. O fr. danse, de danser, ambos do séc. XII, é a origem do port. dança, esp. it. danza, prov. cat. dansa, ing. dance, al. Tanz, hol. dans, do séc. XIV. Danser, de origem obscura, vem provavelmente, do al. ant. dansôn,’tirar, puxar’, referindo-se à dança em círculo, onde o dançarino é tirado para dançar, ou pode ter-se originado da forma hipotética da língua dos francos *dintjan,’movimentar-se de um lado para outro’. Danser, danse, refere-se às danças mais requintadas, baller, bal, ‘bailar, baile’, do séc. XII, lat. ballãre, do séc. IV, gr. Bállõ, ballízõ,’atirar, lançar,dançar,bailar’, designa formas de dança popular. A grafia em português em flutuado entre dansa e dança, fixando-se convencionalmente nesta.

 

Definição. Manifestação espontânea do ser humano, a dança pode ser individual ou coletiva. Quando expressa a imaginação, emoções básicas, representação de fenômenos da natureza ou ações objetivas em geral, pode ser chamada figurativa; quando representa configurações simbólicas do inconsciente, diz-se abstrata. Sua projeção plástica no espaço está diretamente ligada ao psiquismo do indivíduo e por conseqüência ao seu desenvolvimento intelectual e à sua cultura. Os movimentos podem seguir um ritmo interior, determinado pelas próprias emoções e prescindindo de acompanhamento, ou podem ser executados seguindo ritmo determinado por palavra falada ou cantada, instrumentos musicais, ruídos etc.

 

Histórico. A dança é a mais antiga das artes, acompanhando o homem ininterruptamente através de sua história em todos os momentos de sua existência, servindo como elemento de comunicação e afirmação, e dando-lhe possibilidade de viver plenamente, através de seu próprio corpo, os símbolos de seu inconsciente, liberando diretamente sua emoções reprimidas por tabus culturais. Nota-se a participação intensa da dança na vida de todas as civilizações primitivas, onde a emoção e o pensamento mágico não eram inibidos pela racionalização ou pela repressão dos instintos.

 

Da necessidade de manifestar esse pensamento mágico, relacionar-se com a natureza e com o desconhecido, o homem chega à execução de seus rituais e neles participa com seu corpo, seus sentidos e suas emoções. Nesse momento surge o drama e com ele o ritmo, a música, a dança e a procura da forma.

 

Nos momentos importantes de sua vida, nascimento, procriação, morte, para evocar ou propiciar os fatores importantes à sua sobrevivência (sol, chuva, plantio, colheita, caça, pesca) e para manifestar sua luta pela vida, seu amor, sua alegria e de seu desamparo, suas vitórias na guerra e na paz, suas súplicas e seus agradecimentos, o homem dança, só ou ligado a seus semelhantes pelos grandes círculos mágicos que se encontram nos rituais das civilizações mais primitivas e nas manifestações recreativas das culturas mais avançadas. Assim, o homem se liga aos outros homens, a si mesmo, ao mistério, à essência da própria vida.

 

É impreciso o limite entre o que se poderia chamar de danças religiosas e cerimoniais e de danças tradicionais, sociais, sendo que a origem dos dois tipos é o movimento de encontro com a vida. As fronteiras do folclore em todos os campos são indeterminadas, em se tratando de dança, manifestação tão freqüente e quase generalizada em todas as religiões e celebrações de maior ou menor importância na vida dos povos.

  

Pré-história. Do final da era glacial, em torno de 15 mil anos atrás, são os primeiros documentos existentes sobre uma forma rudimentar de movimentação corporal coordenada, que se poderia chamar de primórdios da dança. As gravações e pinturas rupestres encontradas em diversos pontos do mundo apresentam muitas vezes cenas onde homens aparecem com máscaras de animais; são cenas de dança ou mímica. Das cenas simulatórias para propiciar boa caça passa-se facilmente às danças com disfarces de animais, onde a mímica se desenvolve. Os movimentos corporais estão sob controle, surge o estereótipo e, conseqüentemente, aparece a dança grupal, com um objetivo determinado.

 

Paralelamente, um outro tipo de dança, espontânea e emocional, é encontrada nos rituais como uma forma de manifestação individual ainda vista hoje nas danças dos povos de cultura primitiva. Os gestos, aparentemente desordenados, têm uma importância mágica e tendem posteriormente a codificar-se pela sua repetição, transformando-se numa técnica, numa seqüência de símbolos que podem ser comunicados a um grupo maior ou menor de pessoas. Dependendo da penetração desses símbolos, eles serão ou não assimilados pelo processo cultural desse mesmo grupo.

 

É quando se desencadeia o gesto criador, conscientemente repetido, e a dualidade executante-observador se estabelece: dá-se a aparição da arte. Com o advento da agricultura e da observação dos fenômenos naturais surgem as danças de harmonização com os elementos da natureza, visando à fertilidade da terra: danças em honra ao sol, danças que imitam as fases da lua, o vento e a chuva, muitas vezes com sacrifícios e oferendas organizadas em forma de ritual, geralmente com uma procissão preliminar e finalmente com uma dança circular em torno do altar.

 

Antiguidade. Alguns autores atribuem idade de cinco mil anos a relevos egípcios que mostram danças rituais. Da perfeição da técnica de sua plástica surge uma arte escrupulosamente codificada. Também as danças populares são vistas executadas por bailarinos profissionais, numerosos nas grandes cidades do reino egípcio, exibindo-se nas praças ao som de instrumentos. Entre os hebreus há poucos testemunhos plásticos de dança, nas muitas passagens do Velho Testamento mostram que a música e a dança estavam presentes em vários momentos da vida do povo.

 

Na Grécia, do culto a Dionísio surgem no séc. V a.C. as duas formas de teatro cantado e dançado: a tragédia e a comédia.

 

Na Idade Média. Com a difusão do cristianismo o teatro romano dos mímicos começa a decair. Só a província continuou mais tolerante, e os mímicos, comediantes, músicos e bailarinos ali ainda se mantiveram, apesar das excomunhões, apresentando-se sobre tudo nos dias de festas diante das igrejas. Daí nasce um gênero de música cantada e dançada, como por exemplo os virolais, bals rondos etc., executados pelos peregrinos que iam a Monteserrat (Catalunha). Por volta do séc. XIII, as danças realizadas no átrio já passam para o interior da Igreja, como em Avignon, onde as autoridades se esforçaram inutilmente para impedi-las, enquanto o Concílio de Sens, em 1485, lamentava a profanação dos templos com danças e jogos.

 

Uma das formas artísticas mais características da Idade Média é o seu teatro litúrgico, que vai transformar-se no teatro religioso popular, iniciado na Igreja, saindo depois para o próprio e logo para a praça. O diabo é um dos personagens mais presentes nesses jogos, tomando nomes variados nos mistérios e nas farsas, onde executa danças assustadoras com fins maléficos, em cenas ainda bastante parecidas com as cerimônias mágicas dos povos primitivos. Apenas o diabo e os anjos dançavam nessa época: estes em roda e aquele em solo, entregue a gesticulações frenéticas.

 

A dança dos mortos, surgida no séc. XIV, é outra forma que teve muita difusão: nela concorrem personagens de maior e menor importância social, julgados por seus pecados e condenados a entrar na dança chamados pela morte. Por essa época, as danças tinham como acompanhamento o canto, surgindo as baladas, vocábulo que originariamente indicava canção para ser dançada. Com o progresso dos instrumentos musicais, forma-se um vasto repertório de canções dançadas, incorporando-se-lhes muitos elementos das canções dos jograis e menestréis.

 

Surgiram daí várias formas, como a treske, dança de caráter popular em que se bate com os pés, e a carola, mais refinada, dança de grupo em fila aberta, cujos bailarinos, de mãos dadas, se deslocam dos salões dos castelos até os prados floridos.  Desenvolvem-se as danças altas e danças baixas; nas primeiras, os bailarinos saltam, elevam-se no espaço, enquanto que nas segundas deslizam e seus pés quase nunca abandonam o solo. Essas danças constituirão a base das danças no Renascimento, integrando a série de transformações sociais e culturais iniciadas por volta daquela época.

 

O Renascimento. As manifestações artísticas do Renascimento definem-se pela pretensão de retorno aos padrões culturais da Antiguidade clássica. Na Itália, mais precisamente em Florença e na corte dos Médici, voltam a ser celebradas as antigas festas romanas, o carnaval, Il ballo e a canzone di ballo. As festas assumem importância inusitada: surgem os entremets, de que descenderá o ballet (balé). As danças baixas, em fr. basses danses, típicas da corte, são quase uma decorrência das pesadas roupagens e dos gestos senhoriais. Enquanto se desenvolviam lentamente pelos prados e salões, o povo brincava, saltava, apurando o virtuosismo pessoal.

 

O baladin, no jogral assume posição de destaque, a de mestre de dança. A dança senhorial precisa ser regulamentada e submetida a um processo de convencionalismo sem o qual não existiria o que se entende por ‘bom gosto’ (bienséances). É preciso amaneirar a dança rústica, evitar a improvisação constante da dança popular e burilar danças como a piva, a chacona, a sarabanda, para que possam entrar nos salões.

 

Sob a denominação de balli os tratadistas italianos, como Cesare Negri e Fabrício Carosa, descrevem essas danças, acrescentando algumas de sua própria invenção, como pequenas pantomimas superpostas a um fundo de danças populares, como a quaternária, a calata e o saltarello, a que na França correspondia o breban; mas é a moresca a dança típica do momento. Quaisquer que fossem as novidades introduzidas nas danças altas e baixas, para participarem das festas renascentistas, não havia comemoração sem a moresca, pois podia ser dançada por uma pessoa só, por um par ou por um grupo de qualquer número. A galharda e a pavana são também duas danças de fila aberta, que assumem o primeiro plano durante muito tempo nas sociedades européias.

 

As danças dessa época poderiam ser divididas em três grupos: as de pares soltos, as de pares unidos e as de grupo. As danças de pares soltos são principalmente a pavana, a espanholeta, o passamezzo, a galharda, a courante, a cascarda, a bergamasque, a sarabanda, a chacona: as de pares unidos são a volta e o Drehtanz alemão, que conduzirá ao Ländler, por sua vez transformado em valsa no séc.XIX. Das danças de grupo, a de maior significado foi o brando, incluindo todas as branles francesas. A dança sofreu uma transição gradativa, desde as danças de corte até o balé, afastando-se cada vez mais do povo.

 

Dança moderna. Teve seu início no final do séc. XIX e como precursora a norte-americana Isadora Duncan (nascida nos E.U.A. a 27/05/1878) que provocou verdadeira revolução no panorama da dança de espetáculo, rompendo com os dogmas do balé e trazendo a improvisação e a espontaneidade como principais características de seu modo de dançar.

 

Expressionismo. Rudolf Von Laban foi o precursor do expressionismo coreográfico, liberando definitivamente a dança da música e do teatro. Pesquisador por excelência, sua vida foi uma série ininterrupta de mudanças em direção a novas experiências e novas descobertas. Viajou para Paris, Berlim, Viena e outros centros, onde desenvolveu seus estudos sobre o movimento, tendo visitado inclusive regiões remotas, observando os costumes dos índios norte-americanos, bem como os de diversas tribos africanas e orientais.

 

Rudolf Von Laban, coreógrafo e dançarino alemão, nasceu em Bratislava a 15 de dezembro de 1879 e morreu em Londres a 1º de julho de 1958. Considerado o maior teórico e grande nome da dança livre, de que fundou em Munique (1910) a primeira escola.

 

Atualmente, o Wigman Studio, reaberto em 1948, funciona em Berlim e pode ser considerado um dos mais completos centros de estudos de dança.

 

Danças folclóricas. Desenvolvendo-se em cada país segundo o temperamento e os costumes de seu povo, as danças folclóricas baseiam-se mais no ritmo e na criação através do movimento, sentido fortemente pelos artistas; esses completam sua arte com a pesquisa, buscando as origens de suas danças, às quais acrescentam uma forma teatral. Estilizar o popular não é tarefa simples e pode acontecer que, afastando-se da natureza, o artista perca a sua essência, conseguindo conservar apenas os elementos mais primários. Trazer os motivos populares para a categoria de espetáculo e obter que o espetáculo não seja apenas dedicado a uma maioria de estudiosos, e sim ao público em geral, requer condições artísticas e intelectuais que poucas vezes se encontram reunidas.

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional