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Dança no Brasil

Última modificação : Segunda, 12 Outubro 2015 16:07




A dança folclórica no Brasil absorveu três influências principais: a de origem indígena; a de origem negra, trazida pelos escravos africanos; a européia, devida à colonização portuguesa. Da fusão dessas três culturas surgiram algumas formas tipicamente brasileiras. As danças dramáticas, assim chamadas em razão de seu conteúdo figurativo de fatos e passagens representativos das origens culturais brasileiras, são inspiradas fundamentalmente em fontes mágicas e religiosas, tanto pagãs quanto cristãs.

 

Podem ser divididas em três grupos principais: os pastoris, as cheganças e os reisados, festejos correspondentes às janeiras, festas portuguesas celebradas no Brasil até fins de séc. XIX, por ocasião das festas natalinas, prosseguindo até o Carnaval, onde se oferecem presentes, alimentos e dinheiro aos cantores, que louvam os santos e donos das casas visitadas. Os brinquedos iniciam-se no Natal com os pastoris e vão terminar geralmente no Carnaval com os caboclinhos.

 

O cortejo, elemento comum a todas as danças dramáticas, assume importância algumas vezes maior que a própria ação e é originário não apenas das procissões organizadas pelos jesuítas e das quais participavam fiéis, cristãos novos e gentios com suas roupas de festa e seus instrumentos musicais, mas também dos cortejos africanos. É constituído de peças móveis, as cantigas, que podem ser incluídas ou não no seu transcorrer. Os participantes caminham pelas ruas cantando e dançando de casa em casa, em busca do local onde se dá a ação propriamente dita, chamada geralmente embaixada; os cortejos se dividem em vários episódios, as jornadas.

 

Os pastoris ou bailes pastoris, ou ainda autos pastoris, são realizados diante do presépio na noite de Natal, aguardando-se a missa da meia-noite, e representam a visita dos pastores ao estábulo de Belém e a celebração do nascimento se Jesus. Aos grupos que cantam e dançam vestidos de pastores forma agregados alguns outros personagens, evoluindo a ação para os autos, que ainda se mantêm no Norte e Nordeste do Brasil. Executados dentro de salas e representados sobre tablados, hoje, dispensam a presença das figuras sagradas. As músicas são de conotação religiosa, apesar de algumas danças de compassos vivos serem executados pelas pastoras.

 

As cheganças, sempre executadas sobre um tablado ao ar livre e por grande número de pessoas, referem-se às guerras marítimas e lutas entre mouros e cristãos, onde os últimos sempre saem vencedores e os primeiros são batizados. Existe a chegança de marujos, marujadas, ou ainda fandango ou barca e chegança de mouros, a chegança propriamente dita. São originárias de uma dança portuguesa, não dramática, praticada pelos marujos e muito em voga no séc. XVIII, finalmente proibida por D. João V, dado o seu caráter sensual. Os personagens, vestidos de marinheiros, oficiais ou mouros, dançam ao som de instrumentos de corda e a música é toda de influência européia.

 

Os reisados consistem em adaptação dramático-coreográfica de romances e cantigas populares; são constituídos de um único episódio, que engloba a significação completa do assunto. São executados por grupos que cantam e dançam na véspera do dia de Reis, podendo ser um cortejo de pedintes cantando versos religiosos, humorísticos, ou ainda autos sacros com motivos da história de Cristo. Posteriormente, tomou-se o costume de reunir dois ou mais reisados, terminando sempre com a representação do bumba-meu-boi, lembrando o personagem originado do presépio. Esse episódio assumiu tal importância que passou a ser apresentado isoladamente, sobretudo por ocasião das festas juninas.

  

O bumba-meu-boi, ou o boi-sumbi, como é chamado no Ceará, ou ainda boi-bumbá, no Amazonas e no Pará, é indubitavelmente, das danças dramáticas, a mais famosa em todo o Brasil. Enquanto as cheganças e os pastoris dependem de um tablado, o bumba-meu-boi necessita apenas de espaço livre. Não há modelo fixo, para o auto, que modifica seu enredo e seus personagens de região para região. O tema básico é um boi que dois vaqueiros guardam e que é morto por um deles num momento de cólera. Um médico atende ao boi a aplica-lhe um clister, ele ressuscita e dança novamente. Durante esse acontecimento intervêm vários personagens; um coro, de que todos participam, responde às cantigas da cena. Em cada Estado o folguedo apresenta elementos locais. Os instrumentos que o acompanham são o violão, a rebeca, a sanfona, entre outros instrumentos.

 

Outras formas de danças dramáticas existem no Brasil e continuam sendo praticadas, dependendo da região, com maiores ou menores transformações a partir de sua origem. Os congos ou congadas, de origem africana, revivem, através da ação dramática, passagens e costumes da vida tribal; na sua forma mais primitiva são apenas um cortejo real, onde se desfila cantando e dançando.

 

No Nordeste as congadas desenvolveram-se muito e, como nos outros lugares onde são realizadas, sempre aludem a práticas religiosas, trabalhos, lutas e festividades. Derivam basicamente da celebração da posse de um rei novo, sendo o bailado geralmente dividido em duas partes principais: ao cortejo real, que, dentro do mesmo esquema das danças anteriores, é constituído pelas cantigas e desfila pelas ruas, sendo bastante flexível em sua constituição. Segue-se apresentação de uma embaixada, geralmente de guerra, estruturada com partes fixas, quase sempre relatando um fato histórico.

 

Maracatu é a designação mais recente para o mesmo tema, já sofrido um processo de desenvolvimento maior em sua ação. Os personagens básicos são os mesmos, o rei, a rainha e o embaixador. O porta-bandeira tem sempre o título de embaixador e carrega o distintivo da ‘nação’. A saída do maracatu ocorre no Carnaval; tem atualmente sua maior expressão em Pernambuco. Cada cordão leva um nome especial, geralmente de origem religiosa ou geográfica, precedido da palavra ‘nação’: Nação do Sol Nascente, Nação da Cambinda Velha, e assim por diante.

 

Os caboclinhos são, basicamente, um bailado de caracterização indígena, sem cantigas e de figurações primárias. Saem por ocasião do Carnaval e seus personagens fantasiam-se de indígenas, executando movimentos primários ao sinal da pancada das flechas nos arcos, simulando ataque e defesa, em saltos e simples troca de pés. O instrumento básico é uma gaita reta e o ruído dos arcos serve para marcar o ritmo. O elemento coreográfico sobrepuja altamente o musical e exige mesmo virtuosidade, não apenas dos personagens solistas, mas também dos figurantes.

 

Os moçambiques também não apresentam nenhum enredo dramático. Talvez se tenham originado com os escravos negros que trabalhavam nas minas de ouro. É um cortejo que desfila pelas ruas, em certas épocas do ano, à semelhança das outras danças dramáticas, compartilhando de todo o cerimonial das festas religiosas. Usam sistematicamente instrumentos de percussão e o bailado prossegue indefinidamente sem ordem predeterminada nas danças ou na coreografia. Entre um e outro número é feita uma louvação aos santos, como recitativo que é mais gemido que cantado, assemelhando-se vagamente ao cantochão.

 

Do folclore indígena propriamente dito há um sem-número de danças de grande importância para a vida tribal. Simbolizam atos e feitos relativos à vida diária e costumes, apresentando muitos elementos decorrentes do contato íntimo com a natureza. Em lugares onde penetram apenas os homens são guardadas as vestimentas para os rituais, as máscaras e os instrumentos de música usados nas cerimônias, através das quais se relacionam com as divindades. O canto e a dança são o principal elemento transmitido de pais a filhos, sendo o ritual celebrado em linguagem incompreensível para a tribo em geral.

 

Do folclore negro, o candomblé, festa religiosa dos negros jejes-nagôs, mantida na Bahia e em alguns outros estados pelos seus descendentes, é sem dúvida uma das manifestações em que se pode observar mais diretamente a influência dos ritos e dos costumes africanos trazidos pelos escravos para o Brasil. Cultivam divindades da religião ioruba, chamadas orixás, intermediários entre os fiéis e a suprema divindade, Olorum, que simbolizam forças naturais e se apossam dos médiuns ou ‘cavalos’.

 

Os orixás têm, individualmente, cantos denominados pontos, ritmos ou ‘toques’ de atabaque e danças com movimentos característicos, além de símbolos gráficos, adereços, comidas e indumentária especiais. Os principais são: Oxalá, que paira acima de tudo; Xangô, o trovão; Ogum, a guerra; Oxossi, a caça; Omulu, a peste; Iemanjá, o domínio do mar; Iansã, o vento; Oxum, a água dos rios e dos lagos; Oxum Maré, o arco-íris. Esses orixás têm suas ‘filhas’, sacerdotisas votadas a seu culto; na possessão das ‘filhas de santo’, ato característico do culto, elas entram num estado psicológico especial, dançam ao som dos atabaques e gritam sons característicos de cada divindade.

 

Todas essas formas de dança, mais ou menos desenvolvidas e difundidas segundo o local ou a região em que se apresentam, não atingem a importância do Carnaval na penetração em todo o país e nas diversas camadas sociais e econômicas. O Carnaval é a mais difundida das festas folclóricas brasileiras e nivela durante quatro dias toda a população num só festejo. Para ela o povo economiza o ano inteiro, abandonando muitas vezes trabalhos seguros para poder entregar-se livremente aos quatro dias de festa: bailes em todos dos lugares, fantasias riquíssimas, desfiles com passos dos mais complicados ao som de músicas feitas especialmente cada ano.

 

O Carnaval no Rio de Janeiro é o que assume maiores proporções qualitativa e quantitativamente. O desfile de milhares de pessoas nos ranchos, carros alegóricos e escolas de samba, constitui o maior espetáculo folclórico do país. Ensaia-se o ano inteiro, compõem-se músicas e coreografias apropriadas aos temas escolhidos para serem apresentados e trabalha-se na confecção de fantasias e adereços.

 

O povo inteiro dança durante quatro dias e quatro noites, nas residências particulares, nos clubes e nas ruas, danças como o samba, a marcha ou o frevo. A última, dança de rua ou de salão, em Pernambuco, é uma das maiores manifestações do Carnaval. É uma dança de multidão, mas curiosamente individual, onde os bailarinos se desdobram em movimentos quase acrobáticos ao som de um ritmo violento e frenético. A improvisação e o virtuosismo são suas características fundamentais.

 

O samba é a dança mais popular em todo o Brasil. Dançado por todas as camadas sociais em todas as ocasiões, manifesta-se por várias formas. Existem sambas e marchas, que, como o frevo, não têm tema nem coreografia determinada, sendo totalmente livre a possibilidade de improvisação na dança.

 

Outras formas de dança que tiveram seus momentos de maior ou menor penetração foram o lundu, o coco e o cateretê. O lundu, nascido na senzala, ganhou a rua e chegou a penetrar nos palacetes, popularizando-se com grande rapidez. O coco, dança popular nordestina, apesar de influência africana visível, possui disposição coreográfica semelhante à dos bailados indígenas e as variações são inúmeras. A mais comum é a roda de homens e mulheres com o solista no centro. Usam-se palmas e percussão, notando-se a ausência de instrumento de corda.

 

O cateretê é uma dança de par, do Sul do Brasil, provavelmente da época colonial, podendo ser dançada mesmo sem mulheres. Desconhece-se a origem precisa dessa dança, que apresenta alguns elementos fixos: duas filas, uma de homens e outra de mulheres, dirigidas por violeiros, evolucionam ao som de palmas e batidas de pés.

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional