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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Bach, o músico do futuro

Última modificação : Sexta, 03 Outubro 2014 18:04



Johann Sebastian Bach (1685-1750) criou, no século XVIII, obras que só seriam devidamente apreciadas no século XX. Era, na sua época, um músico do futuro. Costuma-se dizer o mesmo de W.A.Mozart e L.V.Beethoven que, junto com ele, formam a tríade dos gênios incontestáveis da história da música. Mas isso não corresponde à realidade dos fatos, porque, tanto Mozart como Beethoven,  foram célebres em vida. Bach, não. Em sua época, os grandes centros musicais da Europa eram Viena, Londres, Paris, Roma, Veneza. Bach passou a vida em pequenos burgos da Alemanha recém devastada pela peste e por guerras internas, longe do público e da crítica, num tempo em que as notícias demoravam dias para chegar. 


Numa comparação com o mundo globalizado de hoje, em que a meca cultural é Nova York, era como se um compositor criasse obras-primas num vilarejo perto de Adis-Abeba. Sua música permaneceu no ostracismo até cerca de 100 anos após sua morte. No século XIX, compositores como Mendelsshon, Schumann, Chopin e Berlioz executaram a obra de Bach, reapresentando-a ao público. Na época, no entanto, conhecer suas partituras era como ter acesso à cabala. Foi somente em 1829, em Berlim, quando F.Mendelssohn (1809-1847) regeu a “Paixão Segundo São Mateus”, com coro e orquestra, que Bach saiu do ostracismo e teve o reconhecimento de sua obra em toda a Europa. J.S.Bach tinha consciência que compunha para o futuro. Um episódio quase folclórico exemplifica isso. Quando era diretor musical na cidadezinha de Köthen, viu repentinamente sua verba minguar.


A esposa do príncipe local pressionou-o a usar o dinheiro da orquestra para criar uma guarda pessoal! Bach, então, aproveitou o tempo livre para criar “O Cravo Bem Temperado”, obra que foi considerada pelo lendário pianista Hans Von Bülow o “Antigo Testamento” da música para teclado – o “Novo” seriam as 32 Sonatas de L.V.Beethoven. A “Missa em Si Menor”, obra-prima de Bach, nunca foi executada na íntegra durante a vida do compositor. Seus patrões em Leipzig, onde era músico de igreja, o impediam, por contrato, de produzir peças “operísticas demais” para o ofício religioso. Bach, então, criou a obra e a engavetou. A primeira edição completa da partitura só veio à luz em 1845 e deixou o mundo estarrecido. J.Brahms escreveu: “Custa-me acreditar que algo assim tão sublime e tão tocante possa ter sido obra de um homem”. A religião de Bach, sua ideologia e sua filosofia se resumiam em uma única palavra: música. Ele compôs até no leito de morte, quando, doente e já cego, ditou uma peça vocal para o genro. Era o último capítulo de um legado inestimável à posteridade. 




Fonte: Revista Veja, 14/03/2001