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Os mais famosos compositores da linha do tempo

ALAÚDE

Última modificação : Segunda, 15 Setembro 2014 17:51



Família dos cordofones. Este instrumento é de corda palhetada ou dedilhada, com braço trastejado.


Etimologia. O esp. laúde. antigo alaúde e o port. alaúde remontaram ao ar. ‘ud ‘madeira, depois ‘alaúde’, com o artigo ar. al-aglutinado. Pertencem ao acervo primitivo daquelas duas línguas peninsulares. O mesmo étimo deu o cat. laüt, o fr. luth. o it. liuto.
Em espanhol há documentação verbal desde o séc. XIV, embora a iconografia seja anterior em toda a Europa ocidental.


Alaude 8cordas Wikipedia
Alaúde de 8 cordas duplas do Renascimento
Fonte: Wikipedia.org
 
Definição. É instrumento de cordas dedilhadas, constituído de caixa de ressonância, braço e cravelhame. A caixa de ressonância tem forma de meia pera, dividida no sentido do comprimento. O fundo é formado por gomos longitudinais, cujo número oscila entre nove e quarenta; estes, numa extremidade, se reúnem no braço e, na outra, são reforçados externa e internamente por tiras de madeira. Utiliza-se, para a sua construção, sicômoro, cedro, pinho ou madeiras similares.
 
O tampo é plano, em geral feito de pinho, e reforçado na parte interna por barras transversais; do número destas e de sua disposição depende consideravelmente a qualidade sonora do alaúde. Colado ao tampo, acha-se o cavalete, onde se assentam as cordas e, entre este e o braço, há um orifício recortado em rosácea trabalhada. O braço é relativamente curto e mede a terça parte do comprimento das cordas; sua superfície se estende no mesmo plano que o tampo e constitui o ponto dividido em semitons por meio de trastes. O cravelhame é inclinado para trás, formando ângulo quase reto com o braço; isso permite que as cordas se prendam fortemente às cravelhas e ajuda a manter mais baixo o centro de gravidade do instrumento. As cordas, com exceção da mais aguda (a cantadeira), são dispostas em pares, afinados em uníssono. Até o séc. XVII, as cordas eram feitas da tripa e, posteriormente, enroladas de metal.
 
Segura-se o instrumento em posição um pouco inclinada em relação ao corpo. Os dedos da mão esquerda pressionam as cordas no ponto, com exceção do polegar, que se coloca na parte posterior do barco. As cordas são dedilhadas pelo polegar, primeiro, segundo e terceiro dedos da mão direita (o dedo mínimo repousa sobre o tampo, ou perto da extremidade aguda do cavalete). O alaúde exige grande virtuosismo e capacidade artística para que o executante obtenha uma sonoridade cheia, delicada e sombria, que é característica expressiva do instrumento.
 
História. Quanto às origens, ele se prende aos mais antigos instrumentos de braço, dos quais se conhecem os tipos tanbura e rebab.
O primeiro, ovóide, de braço longo; o segundo, de forma acentuadamente alongada, com braço incorporado à caixa e o cravelhame em ângulo reto. Uma hibridação dos tipos tanbura e rebab teria dado origem al-‘ud árabe, instrumento que associava o braço do primeiro ao corpo convexo do segundo. Se as hipóteses relativas ao seu aparecimento não se encontram confirmadas, não pairam dúvidas que o ‘ud foi introduzido pelos mouros na península Ibérica por volta do séc. IX, sendo o verdadeiro ancestral do alaúde não apenas vocabularmente.
 
As informações sobre o alaúde vêm de testemunhos iconográficos. No séc. X aparece com cinco cordas (Livro de Salmos, do museu de Stuttgart); duzentos anos mais tarde, figura como a representação simbólica do sexto tom gregoriano (escultura da catedral de Amiens); no séc. XIII é representado com forma de meia pêra, tampo plano, cravelhame inclinado e seis cordas simples (vitrais de Bon-Port). Com o advento da canção trovadoresca, adquire importância como instrumento acompanhador e, nessa época, dele derivam o cistre e a pandora, a qual, posteriormente, dará origem ao bandolim.
  
No séc. XIV a informação é mais rica: sabe-se que é tocado com plectro, e tem de preferência quatro cordas simples. É mencionado por poetas e cronistas em enumerações de instrumento, ou então louvado por suas qualidades.
 
No séc. XV multiplicam-se as aparições do alaúde onde, em mãos de anjos e de reis, confirma seu papel de instrumento musical essencialmente aristocrático. Em 1440, num manuscrito de Arnold de Zwolle, surge o primeiro desenho minucioso de um alaúde, com instruções sobre sua construção.
 
Nos sécs. XIV e XV, o alaúde é geralmente associado aos instrumentos de arco (viela e rebeb), na execução de cantos reais e de composições instrumentais. Suas possibilidades são adequadas à extensão de duas oitavas e uma sexta, que abrangia a musica da época. Ao participar de conjuntos que executam partes de peças polifônicas, já prenunciava as transições do séc. XVI.
 
A posição aristocrática se justifica por duas características: sonoridade delicada, imprópria para a execução de danças populares, e construção complicada, ornada de rosáceas, o que eleva o preço. Esses fatores determinam seu prestígio crescente e configuram as condições musicais que levarão o instrumento ao apogeu.
 
No séc. XVI o alaúde assume posição privilegiada, graças ao prestígio de que goza junto à nobreza. O plectro é abandonado, as cordas passam a ser dedilhadas e aparecem as primeiras tablaturas, que tornam as composições mais acessíveis aos executantes.
 
No decorrer do século, o instrumento é enriquecido com o acréscimo da sexta corda ao baixo. As cordas são afinadas em quartas, com um intervalo intermediário de terceira (em fr. vieux ton [tom velho] ou viel accord [acorde velho]); o ponto é dotado de sete trastes que fixam a divisão cromática das cordas. O repertório alaudístico é constituído por transcrições de peças vocais ou de danças instrumentais, acompanhamento de canções e peças compostas especificamente para o instrumento.
 
Nas transcrições polifônicas, a voz principal é às vezes mantida pelo cantor, cabendo ao alaúde a execução de outras partes. Essas reduções alteram a obra original pelo uso de ornamentos, por causa da dificuldade de sustentação de valores longos num instrumento de cordas dedilhadas. As vozes, reunidas em tablatura, perdem visual e auditivamente o aspecto polifônico; seu movimento desaparece, diluído numa sucessão de acordes, e as transcrições adquirem caráter harmônico, ao mesmo tempo em que preparam o terreno para o surgimento da melodia acompanhada. Transcrições ousadas, de peças a várias vozes, permitem a divulgação de obras polifônicas raramente executadas em suas versões originais, e muito esclarecem sobre o emprego de acidentes na música vocal, já que estes eram inequivocamente registrados nas tablaturas.
 
As transcrições de danças fazem ressurgir nas cordas de um só instrumento, em execuções domésticas ou em saraus aristocráticos, o que antes era dedicado a um conjunto instrumental. Por serem peças curtas, começaram a ser agrupadas em pequenas sequências, que vão perdendo o caráter coreográfico: é um prenúncio da suíte. As composições específicas para alaúde são fantasias e ricercari, de ritmo par e invariável; apresentam temas nitidamente desenhados ou um caráter de improvisação, de aspecto preferentemente harmônico, que faz ressaltar as qualidades sonoras do instrumento.
 
Na Itália surgem os principais compositores e intérpretes, editam-se as primeiras antologias de tablaturas e tratados teóricos e se fabricam os melhores instrumentos. A França é logo influenciada, e lá, o alaúde se torna fundamental, quer como solista, quer como acompanhador dos airs de cour (árias cortesãs). Na Alemanha a prática do instrumento vem desde o séc. XV, quando era usado em igrejas modestas, substituindo o órgão, e muito apreciado na Hausmusik: Lieder acompanhados e preambel, de estrutura mais complexa que os ricercari, configuram a produção local. A Inglaterra, mantendo a preferência pelo virginal como instrumento solista, utiliza o alaúde especialmente no acompanhamento do canto, nos famosos lute songs (canções de alaúde).
 
Somente a Espanha não dá primazia ao alaúde, pois tem predileção absoluta pela vihuela. Deve-se ressaltar que os grandes alaudistas do século viajaram constantemente, influenciando os centros musicais por onde passavam e enriquecendo-se com a experiência que neles adquiriam.
 
No séc. XVII, a música se desenvolve com o florescimento do madrigal e o nascimento da ópera; começa a ascensão dos instrumentos de cordas e de teclado. O alaúde goza de prestígio musical e social, mas procura uma ampliação de suas possibilidades. Derivam-se dele a tiorba e o ghitarrone, de braço mais longo, com um segundo cravelhame e 14 ou 15 cordas, especialmente usado na execução do baixo cifrado para o acompanhamento do canto.
 
O arquilaúde é o desenvolvimento normal do alaúde quinhentista. Chega a ter 11 pares de cordas; as cinco acrescentadas ao baixo são afinadas diatonicamente e presas a um cravelhame suplementar. Os baixos do extraponto facilitam a execução da mão esquerda, complicando, porém, o trabalho da direita. Abandona-se o vieil accord e surge uma variedade de afinações, tendo voga especial o accord nouveau extraordinaire (acorde novo extraordinário), que influência a literatura do instrumento pelo fato de facilitar o estilo arpeggiato. Se o acréscimo de cordas e a multiplicidade de afinações decorrem da necessidade de ampliar as possibilidades do alaúde, acabam por sacrificá-lo, prejudicando seriamente sua sonoridade.
 
Pouco a pouco vai sendo abandonado na Itália e na Inglaterra, e cabe somente à França um brilho especial, na metade do século, com a escola de Paris. Abandonam-se as transcrições e fantasias, e a música instrumental busca a expressão pitoresca e patética. Peças de pequenas dimensões e danças ganham títulos literários, lutam para exprimir através dos já reduzidos recursos do alaúde, todo um tipo de criação musical, que culminará com os mestres clavecinistas. O problema de que o som produzido pelas cordas dedilhadas é de curta duração e talvez monótono, é remediado pelo uso intensivo de ornamentos. Devem-se à escola de Paris peças de importância e beleza que influenciaram na consolidação da suíte e no estilo clavecinista.
 
No séc. XVIII, somente um prolongamento de vida: na Alemanha, o instrumento apresenta novamente todas as cordas do mesmo comprimento, sem segundo cravelhame. Mas esse alaúde, embora bastante apreciado e tocado, já é diferente do que brilhou nos séculos anteriores. Alguns bons compositores e executantes fazem tardias transcrições de peças vocais, ou o utilizam de forma concertante. O alaúde apenas sobrevive na Alemanha, onde vai silenciar quando aparece Haydn.
 
Há mais de meio século, reacende-se o interesse pelo instrumento que, há trezentos anos, gozou de popularidade comparável à do cravo e do piano nos séculos subsequentes. Sua rica literatura é redescoberta, pesquisa-se sua história, e vários intérpretes procuram difundir o imenso acervo de peças que lhe foi destinado.


Alaude espanhol Wikipedia
Alaúde espanhol atual
Fonte: Wikipedia.org
 
Música para alaúde: 1500-1590. Itália. Publicação de tablaturas por Petrucci, a partir de 1507, com obras de Spinaccino, Dalza e Bossiniensis. Em 1536, Casteliono edita a intabolatura di liuto, de Francesco de Milano, e tablaturas de Abondante e Willaert. Seguem-se tablaturas de Bianchini, Giovanni Maria da Crema, Brecchi e Vindella, em 1546. As tablaturas de Simon Ginczler, em 1547. O Fronimo, de V. Galilei, com matéria teórica e peças originais, aparece em 1568.
 
Alemanha. Tablaturas de Schlick, Jundenkünig, Gerle, Neusiedler, Wyssenbach, Waisselius, Sixt Kargel e Denss.
 
França. Em 1529. Pierre Attaignant edita Dix-huil bases-danses (Dezoito danças baixas) e Très bre’ve et familière introduction (Introdução muito breve e familiar). Phalèse publica Des chansons reduictz (1545; Canções reduzidas), com peças de autores italianos. Como compositor, destaca-se Alberto da Ripa.
 
Espanha. O repertório de vihuela, no qual se destaca Luis Milan, adapta-se também ao alaúde.
 
O alaudista húngaro Bakfark tem obra numerosa e viaja por diversos países.
 
1590-1600. Itália. Até 1600, destacam-se os compositores Terzi, Molinaro e Radino; a partir dessa data, Roncalli, Granata e Piccinini.
 
França. Trésor d’Orphée (1600; Tesouro de Orfeu), de Francisque, e Thesaurus harmonicus (Tesouro harmônico), de Besard.
 
Inglaterra. J. Dowland leva o lute song ao apogeu. Destacam-se Cutting Batchelor e Pilkington.
 
Alemanha. Importantes tratados de Martin Agrícola e Michael Praetorius. Entre os compositores, Reimann, Mylius e Valerius.
 
1630-1700. França. Brilho da escola de Paris e de seu principal representante, Denis Gaultier (o jovem), seguido por Du But. Du Fault, Gallot, Saint-Luc e Mouton. Em geral as obras permanecem em manuscritos.
 
No séc. XVIII Johann Sebastian Bach escreve suítes, dois prelúdios, fugas e utiliza o alaúde na Trauer-Ode (1727; Ode fúnebre) e na Johannespassion (1723; paixão segundo João). Haydn compõe, na mocidade, cassazioni para alaúde e instrumentos de arco.
 
O alaúde ainda é um instrumento popular nos países árabes, onde é tocado com o auxílio de plectro e não possui trastes no braço, pois estas duas características distinguem-se nitidamente do alaúde europeu seiscentista. Introduzido pela conquista árabe, este instrumento também se tornou familiar aos europeus que, participando das cruzadas, estabeleceram contatos com povos do Oriente próximo. Nas mil e uma noites menciona-se que uma cantora preparada devia ser capaz de se acompanhar dedilhando o alaúde com uma garra de águia.

Vídeo:

 
Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional