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Sonata

Última modificação : Segunda, 28 Setembro 2015 16:26


 

Etimologia. O port. esp. sonata, do séc.XVIII, fr. sonate, de 1695, ing. sonata, de 1694, al. Sonate, do séc. XVII, é empréstimo ao it. sonata, de fins do séc. XVI, particípio passado feminino substantivo do verbo it. sonare, ‘soar, tanger, tocar um instrumento’, o que é o lat. sonãre, produzir um som, fazer soar’. O vocabulário sonata formou-se em italiano como toccata, do verbo toccare, cantata, do verbo cantare, e significou de início ‘peça tocada em instrumento’, em oposição à cantata, ‘peça cantada’.

 

O port. esp. sonatina, do séc. XIX (ver a seguir 11), fr. sonatine, de 1836, ing. sonatina, de 1801, al. Sonatine, do séc. XVIII-XIX, é empréstimo ao it. sonatina, do séc. XVII, diminutivo do it. sonata.

 

Conceituação. Sonata é o termo que designa, desde o séc. XVIII, uma composição instrumental de forma ternária (exposição, desenvolvimento, reexposição), construída sobre dois temas e obedecendo a um plano que afirma o princípio da tonalidade.

 

Origens. Historicamente, a sonata procede do moteto e do madrigal italianos do fim do séc. XVI, quando essas obras, de destinação vocal, passaram a admitir o acompanhamento instrumental, o que depois foi expressamente previsto pelos autores, como na Coletânea (1565) de Andrea Gabrieli (1520-1586). Vinte anos depois, Giovanni Gabrieli (1557-1612), sobrinho do precedente, publicou seus madrigais A Cantare ossia da suonare. Daí à ostensiva denominação de sonata foi um passo: A.Gabrieli publicou suas Sonate a cinque per istromenti, em 1586.

 

Séc. XVII. Vaga e imprecisa é a realização musical correspondente à palavra sonata no séc. XVII. Abrangendo diversos tipos de composição musical, ela ainda se confunde com prelúdio, intrata, canzona e ‘sinfonia’.

 

Na Itália, onde o termo é mais empregado, designa uma peça para instrumentos de arco, ao contrário da tradição que se firmou depois, de ligar-se tal denominação a uma obra para instrumento de teclado. Nesse período muito contribuíram para o desenvolvimento da sonata, na Itália: Giovanni Bononcini (1642-1678) com a Sonate da câmera e da ballo (1667), Giovanni Battista Vitali, Arcangelo Corelli (1653-1713) com as 12 Suonate a violino e violine e cembalo op.5 etc.; na Alemanha: Johann Froberger (1616-1667) e, na Inglaterra, Henry Purcell (1659-1695) com as Twelve sonatas of III parts (1683; Doze sonatas a 3 vozes), e as Ten sonatas of IV parts (1697; Dez sonatas a 4 vozes).

 

Giovanni Battista Vitali, compositor italiano, nasceu em Cremona, 1644 e morreu em Modena em 12 de outubro de 1692. Distingui-se também como intérprete na viola e no violino. Em Bolonha, até 1674, viveu dessa condição ao mesmo tempo que compunha algumas de suas melhores sonatas. Em 1674 foi para Modena, onde atuou como maestro di capella do duque Francisco II. Particularmente notáveis são as Sonatas Op. 5 (1669), onde se alternam movimentos rápidos e lentos, com grande maestria. Acredita-se que tais sonatas tenham servido de modelo a Purcell para suas próprias sonatas ‘imitando mestres italianos’ (1683).

 

Sonata da camera e Sonata da chiesa. Duas modalidades de sonata alcançaram grande projeção no séc. XVII: a sonata da camera, constituída de danças (confundindo-se depois com a suíte) e a sonata da chiesa, de caráter severo, começando por um movimento lento e ostentando a predominância do estilo imitativo (não raro incluindo uma fuga), em ambas observando ainda a estrutura binária (A-B), típica das danças da suíte. Nessa forma, opera-se uma modificação progressiva da tonalidade, da tônica para um tom vizinho (geralmente a dominante), até o meio da peça, e daí até o fim – do tom vizinho para a tônica. O parentesco entre a sonata da camera e a suíte é tão acentuado que com frequência a diferença entre elas consiste apenas na denominação das peças constitutivas: na suíte conservam-se os nomes das danças (alemanda, sarabanda etc.), enquanto na sonata essas peças são designadas com as indicações dos respectivos andamentos (allegro, adágio, etc.).

 

Diferenciação entre sonata e suíte. Duas constantes, aparentemente pouco significativas, assinalam a diferença entre essas duas formas, ainda no séc. XVII: 1) as suítes (e partitas) têm maior número de peças (das trinta suítes e partitas de Bach, uma compõe-se de cinco trechos, cinco abrigam seis trechos, e todas as outras têm de sete a dez, enquanto as sonatas se constituem comumente de quatro movimentos; 2) as peças componentes da sonata apresentam como característica a estrutura ternária, ainda que por vezes apenas aflorada. Após consumar-se a modificação tonal, da tônica para um tom vizinho ou deste para a tônica, o tema é reapresentado, o que nunca ocorre na suíte. Tal diferenciação será, depois, importante por quanto a estrutura ternária, ausente da suíte, é um dado essencial da sonata.

 

A sonata monotemática. É com as obras de Corelli e Purcell, no fim do séc. XVII, que se afirma a construção ternária. Mas um traço comum perdura na suíte e na sonata: nutrem-se de um só tema, continuamente desenvolvido. Contribuíram para a cristalização da forma da sonata monotemática e sua posterior evolução, na Itália: Corelli, Domenico Scarlatti (1685-1750), com mais de seiscentas breves sonatas (Esercizi per il gravicembalo), Francesco Geminiani (1687-1762), Francesco Veracini (1690-1750) e Giuseppe Tartini (1692-1770); na Alemanha: Johann Kuhnau, Johann Mattheson (1681-1764), Handel (1685-1659) e Johann Sebastian Bach (1685-1750); e na França: Jean-Marie Leclair (1697-1764) e Jean Mondonville (1711-1772).

 

Johann Kuhnau, compositor alemão, nasceu em Geising, Saxônia, em 06 de abril de 1660 e morreu em Leipzig em 05 de junho de 1722. Estudou música em Dresden a partir de 1669. Fixou-se (1682) em Leipzig, onde se tornou diretor musical da universidade (1700) e das duas igrejas principais. Fez traduções do hebreu, do grego, do latim, do italiano e do francês, além de escrever estudos e tratados sobre música. Destaca-se, principalmente, por suas composições para instrumentos de teclado. Transforma a sonata, de música de dança, em peça de vários movimentos, de que são os melhores exemplos suas Frische Clavier-Früchte, oder sieben Sonaten (1696; Frutas frescas de piano ou sete sonatas). Como um dos primeiros exemplos de música de programa, citam-se suas sonatas sobre textos bíblicos em Biblische Historien nebst Auslegung in sechs Sonaten (1696; Histórias bíblicas interpretadas em seis sonatas).

 

Sonata bitemática ou sonata clássica. Com algum exagero, costuma-se atribuir a Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1786) a criação da sonata bitemática, que não foi, porém obra de um só compositor. Entre as sonatas de Domenico Scarlatti e de Leclair e nos trios de Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) já se encontra a nítida presença e atuação de um segundo tema. O grande mérito de Carl Philipp Emanuel Bach foi o emprego do bitematismo como procedimento sistemático, bem como a substituição da escrita polifônica, então já ultrapassada pelo estilo galante, correspondente às solicitações estéticas da época. Outra contribuição sua foi a importância conferida à seção central do allegro (desenvolvimento). Entre os autores que cultivaram a sonata bitemática na segunda metade do séc. XVIII, quando se definiu essa forma, citam-se ainda Johann Stamitz (1717-1757), Pietro Domenico Paradisi (1710-1792) e Johan Christian Bach (1735-1782).

 

A sonata clássica. A sonata atinge, da segunda metade do séc. XVIII até a morte de Beethoven, seu período de clássico esplendor, ao mesmo tempo que deixa de destinar-se exclusivamente aos instrumentos de arco e se instala, principalmente, no repertório do cravo e posteriormente do piano. Seus mestres nesse período são Joseph Haydn (1732-1809), Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), Muzio Clementi (1752-1832) e, sobretudo, Ludwig van Beethoven (1770-1827); este deu à forma uma grandeza jamais atingida antes, nem superada depois.

 

A partir da segunda metade do séc. XVIII, o termo sonata é empregado nas duas acepções seguintes: 1) denominação de uma forma de composição musical; 2) denominação de uma obra que abriga um ou mais trechos vazados nessa forma.

 

A forma-sonata. Nessa acepção o termo se aplica a uma construção musical, que tanto pode ser integrante de uma sonata como de um trio, de um quarteto, quinteto, sinfonia, etc. Divide-se em três seções (fora a introdução, que é facultativa): exposição, desenvolvimento e reexposição.

 

Iniciando a exposição, é apresentado, no tom principal da peça, o tema A, comumente de acentuada feição rítmica, ao qual sucede a ponte, passagem modulatória para um tom vizinho (dominante ou relativo). No tom vizinho é exposto o tema B, constituído de três motivos (b’, b’’ e b’’’), após o que a exposição termina com uma coda.

Nesse ponto, uma barra dupla com sinal de repetição indica a reprise de todo o trecho, o que tem por fim familiarizar o ouvinte com o material temático.

 

O desenvolvimento (Durchführung, isto é, realização, execução) é o trecho em que são desenvolvidas as potencialidades rítmicas, melódicas e harmônicas do material temático exposto na seção anterior, bem como eventualmente apresentados outros temas secundários. Essa seção, caracterizada por modulações e que põe em jogo o domínio da técnica do compositor (segundo o conceito original, em alemão, é o cerne da elaboração da sonata), tem particular importância na obra de Beethoven.

 

Reexposição. Na seção conclusiva, os temas voltam a ser expostos na mesma ordem em que foram apresentados, mas com uma diferença quanto ao plano tonal: após o tema A, a ponte é modulante, como na exposição, voltando, todavia, à tônica para reexposição de B e da coda. Antes da coda, porém, o autor recapitula, transformando-os, um ou mais temas empregados: é o pequeno desenvolvimento terminal.

 

Projeção da sonata sobre outras formas. Da sonata, a mais sólida e fecunda concepção formal da história da música, provêm as formas do duo (sonata para dois instrumentos), do trio, do quarteto, do quinteto e de outras formas de música de câmera (até o sexteto, septeto e noneto), da sinfonia e do concerto para instrumento solista e orquestra. Obviamente, tornando-se mais diversificado e numeroso o meio de execução, a forma adquire, também, maior complexidade graças à repetição das operações harmônicas em cada seção, à introdução de episódios sugeridos pela diversidade de timbres, aos diálogos entre instrumentos ou famílias de instrumentos (no caso da sinfonia) e ao jogo da virtuosidade (no caso do concerto).

 

No caso em que o termo sonata é aplicado a uma obra constituída de vários movimentos, o primeiro, em andamento vivo, é de forma-sonata; o segundo, o movimento lento (adágio, andante, largo, etc.) é escrito em forma de Lied ou de tema com variações, embora podendo ser também de forma-sonata; o terceiro, em andamento moderato, é um minueto (desde Beethoven substituído pelo scherzo); e o último, novamente em allegro, é um rondó (ou então em forma-sonata). Às vezes o scherzo vem antes do movimento lento; allegro inicial, scherzo, adágio e rondó. As sonatas para um ou dois instrumentos, entretanto, mais frequentemente se restringem a três movimentos: vivo-lento-vivo.

 

A sonata beethoveniana. A forma sonata adquiriu excepcional importância na obra de Beethoven, cuja contribuição pode ser assim resumida: na exposição – nítida dramática de caráter dos temas A e B, que assumem a feição de princípios contrariante e implorante, respectivamente da ponte e da coda, que se revestem do caráter de novos temas, atuantes na seção central; no desenvolvimento – acentuação da tensão latente entre os temas, que se opõem e se conflitam como personagens de um drama; após a reexposição – valorização do pequeno desenvolvimento terminal (já existente em Mozart) com uma frase ou período construído de fragmentos dos temas, à guisa de peroração, resumindo expressivamente o movimento. Dois típicos exemplos de pequeno desenvolvimento terminal estão nas Sonata para piano e violino Op. 24 (Primavera) e Op. 47 (Kreutzer). O legado de Beethoven estende-se ainda aos adágios (impregnados de densa carga expressiva); aos minuetos, que foram substituídos por scherzi irônicos e acelerados, e ao movimento conclusivo, em que a forma rondó foi algumas vezes substituída pela variação ampliada ou pela fuga.

 

A sonata romântica. No Romantismo, a sonata não mereceu preocupações formais. Os cultivadores da sonata, nesse período, mais se empenharam em infundir-lhe subjetivismo. Carl Maria Von Weber (1785-1826) e Franz Schubert (1797-1828) ainda se mantiveram fiéis herdeiros de Beethoven, mas a partir de Robert Schumann (1810-1856) e, sobretudo, na Sonata em si menor de Liszt (1811-1886), a forma perde sua feição tradicional e tende a transformar-se em uma obra de música de programa, impregnada de sugestões poéticas. O grande artesão romântico da sonata foi Johannes Brahms (1833-1897), que aliou à solidez da forma clássica os ímpetos da fantasia do artista do séc. XIX. As sonatas de Schumann, Liszt e Chopin (1810-1849) são obras representativas desse período de evolução da forma.

 

A sonata cíclica. Sistematizando um procedimento observado desde Beethoven, César Franck (1822-1890) deu à sonata a forma cíclica, que consiste no emprego de temas permanentes ou motivos condutores, conferindo aos diversos movimentos de uma obra o aspecto de um ciclo de peças vinculadas por um traço comum, perceptível à leitura ou à audição.

 

Preliminarmente, denominam-se cíclicos os motivos que reaparecem ao longo da obra e, por gradação natural, os períodos em que se inserem tais motivos, e toda composição (sonata, quarteto, sinfonia, etc.) construída sobre temas que desempenhem essa função. O caráter cíclico, tendo por objetivo dar maior coesão ao conjunto de partes de uma obra, já se entremostra em sonatas do primeiro período de Beethoven, como por exemplo, na Sonata Op. 13 em dó menor (Patética), onde a cabeça do tema B reponta no início do tema do rondó.

 

Os exemplos mais significativos do emprego da forma cíclica encontram-se em obras de César Franck, como o Quinteto em fá menor, no qual um mesmo tema, modificado apenas no seu aspecto rítmico, faz-se ouvir nas três peças integrantes da obra. No allegro inicial; no lento con molto sentimento e no allegro non troppo.

 

A sonata contemporânea. Forma fecunda, cujas possibilidades ainda não foram esgotadas, a sonata impôs-se aos compositores contemporâneos, entre os quais Bela Bartók (1881-1945), Starvinski (1882-1971), Serge Prokofiev (1891-1953), Henri Dutilleux (1916) etc, renovando-se sempre ao influxo de novas concepções estéticas, de que é exemplo a Sonata para dois pianos e percussão de Bartók.

 

A sonatina. Os compositores clássicos, entre eles Clementi, Diabelli e Beethoven, trabalharam a forma-sonata às vezes em proporções reduzidas, frequentemente com objetivos didáticos, de que resultou a sonatina. Tal modalidade continuou sendo cultivada e dela são exemplos as Sonatinas para piano de Koechlin, Ravel e Bartók, já sem preocupação didática. Exemplo conhecido no Brasil é o dos Três estudos em forma de sonatina de Lorenzo Frenandez.

 

Anton (Antonio) Diabelli, compositor austríaco, nasceu em Mattsee, perto de Salzburg, em 06 de setembro de 1781 e morreu em Viena em 07 de abril de 1858. Inicialmente destinado ao sacerdócio, abandonou a carreira em 1803. Dirigiu-se a Viena onde foi carinhosamente recebido por Haydn. Compositor de música ligeira, de grande popularidade em seu tempo, em 1818 associou-se à editora musical que, em 1924, passou a ser Diabelli & Cia. Sobre uma de suas valsas, que enviou a vários compositores pedindo que dela fizessem uma variação, Beethoven compôs uma de suas obras-primas, as Variações Diabelli (33 Variações sobre uma valsa de Anton Diabelli) Op. 120.

 

A sonata no Brasil. A música brasileira, mais sensível aos apelos da terra do que ao cultivo das formas tradicionais, não se fez notar por numerosa produção de obras fundadas na forma sonata. Entre os autores que a têm abordado com resultados felizes ou com brilho contam-se Henrique Oswald (1852-1931), Villa-Lobos (1887-1959) – várias sonatas e trios, 17 quartetos e 5 concertos para piano, no segundo dos quais introduz a novidade de constituir à cadência o terceiro movimento da obra, Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1968), Claudio Santoro, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe e Edino Krieger.



 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional