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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Coral

Última modificação : Segunda, 05 Agosto 2013 16:28


 

Etimologia. Vocábulo do século XIX, formado de coro e do sufixo -al.

 

Origens. Forma de música vocal do culto protestante, instituída por Lutero (1483-1546), ao ensejo da Reforma, com a finalidade de tornar os fiéis participantes do ofício divino através do canto congregacional. Foi para objetivar a ideia do sacerdócio universal dos crentes, contida na primeira epístola de Pedro (2; 5 e 9), que o reformador criou o coral, inspirando-se no Lied popular alemão. Ele próprio, coadjuvado por Johann Walther, Konrad Rupff e Ludwig Senfl, preparou os primeiros textos e as primeiras melodias de corais, de que a mais antiga coleção - Etliche christlich Lieder (Algumas canções cristãs), Lobgesang und Psalm (Hino e salmo), mais conhecida como Achtliederbuch (Livro das oito canções) - foi editada por Walther em 1524, em Wittenberg. Continha apenas texto e melodia de oito corais; mas, no mesmo ano e na mesma cidade, Walther lançou outra coletânea, Geytliches Gesangk-Büchleyn (Cancioneiro espiritual), com 32 corais harmonizados a 4 vozes.

 

Edições sucessivas foram ampliando o repertório. O último hinário supervisionado por Lutero foi o Geytlich Lieder mit einer newen Vorrede dr. Martini Lutheri (1545; Canções espirituais, com prefácio do dr. Martinho Lutero) editado por Valentin Babst e reunindo corais de vários autores.

                      

De Lutero a Bach produziram-se cerca de cinco mil corais que foram reunidos numa coleção de oito volumes - Andächtiger Seelen geistliches Brand - und Gantz-Opfer (1697; Sacrifício total e espiritual das almas devotas). Bach possuiu um exemplar dessa coletânea, que lhe serviu de repositório para sua própria obra de música sacra.

 

Textos e melodias de corais provieram de várias fontes. Quanto aos textos, além da livre inspiração, Lutero serviu-se da hinódia oficial latina através de traduções e adaptações; de paráfrases e metrificações de salmos e outros trechos bíblicos, e de hinos populares anteriores à Reforma, escolhendo-os e retocando-os com propriedade, critério e distinção. O patrimônio hinológico enriqueceu-se também, do século XVI ao século XIX, com as poesias sacras de Philipp Nicolai, J.M.Altenburg, M.Rinkart, J.Rist, P.Gerhardt, o maior hinólogo do século XVII, e muitos outros.

 

As melodias dos corais tiveram por origem, além da invenção livre dos compositores, as canções populares - que na época também serviam de cantus firmus às missas católicas - os cânticos espirituais da Idade Média e o canto gregoriano, que emprestaram aos corais a indecisão tonal decorrente dos antigos modos eclesiásticos. Canções tradicionais também foram aproveitadas, como Aus fremden Landen komm ich her (De países remotos venho), da qual Lutero fez o coral natalino Vom Himmel hoch da komm ich her (Do céu estou descendo), posteriormente usado por Bach no seu Weihnachtsoratotium (Oratório de Natal).

 

Entre os compositores de corais, além dos já citados, encontram-se Martin Agrícola, Cyriacus, Schneegans, Philipp Nicolai, Johann Eccard, Hans Leo Hassler, Bartholomäus Gesius, Sethus Calvisius, Erhard Bodenschatz, Johann Hermann Schein, Melchior Franck, Samuel Scheidt, Heinrich Schütz e Johann Krüger.

 

O período clássico tanto dos textos quanto das melodias de corais acabava de encerar-se, quando Bach surgiu no cenário musical. Coube-lhe valorizá-los através de sua própria obra vocal e para o órgão. Um novo interesse pela forma surgiu no século XIX, depois da ressurreição da obra de Bach pelo esforço de Mendelssohn.

 

Formas do coral. A forma coral veio a fixar-se na segunda metade do século XVI com as seguintes características: língua alemã ao invés do latim usado no canto gregoriano; melodia no soprano - inicialmente situou-se no tenor -, desenvolvendo-se valores longos, lentamente escandidos; harmonização a quatro vozes na tonalidade moderna, nota contra nota - que assumiria com Bach a feição de harmonia contrapontada; seccionamento fraseológico, verso por verso, formando cadência; execução silábica; articulação simultânea de todas as vozes; acompanhamento ao órgão.

 

Inicialmente, na Igreja luterana, a congregação cantava à maneira choraliter, isto é, em uníssono e sem acompanhamento. A seguir, a execução congregacional passou a ser acompanhada por um coro de cantores. Por último, este cedeu lugar ao órgão.

 

O coral instrumental. O acompanhamento dos corais pelo órgão foi rico em consequências musicais, porque fez surgir, do século XVI ao XVIII, o coral instrumental, cuja evolução atingiu o apogeu na obra de Bach - 150 corais para órgão.

 

Entre os corais instrumentais figuram os que se destinam meramente ao acompanhamento congregacional, de marcada importância a partir da publicação do Tabulaturbuch (1650; Livro de notações), de Samuel Scheidt, que contém harmonizações a quatro vozes de cem corais e cânticos protestantes. Surgem quase na mesma época os prelúdios corais (Choralvorspiele), destinados a anteceder o canto da congregação e baseados na melodia do coral que seria cantado a seguir; as partidas corais ou corais com variações, nos quais o número de variações correspondia ao número de versículos do texto, entoados pelo coro, de modo que cada estrofe cantada era seguida de uma variação instrumental. Também eram frequentes as fantasias corais, ou fantasias com o coral como tema.

 

O coral cantado. Do ponto de vista morfológico, os corais para coro se repartem em dois grupos: um, sem estrutura determinada, apresenta uma sequência de frases melódicas sem preocupação de simetria - corais originados de peças anteriores ao século XV: hinos latinos e cânticos alemães espirituais e profanos da Idade Média -, outro, decorrente do Lied medieval praticado pelos mestres cantores, cuja estrutura repousa sobre dois períodos simétricos: o Aufgesang, que corresponde aos quatro primeiros versos da estrofe e é constituído por duas frases musicais paralelas - quase sempre a mesma frase repetida -, e cada uma relativa a dois versos; e o Abgesang - exórdio -, de estrutura livre, musicando os quatro versos finais.

 

Os corais alcançaram grande divulgação e se integraram na vida religiosa, comunal e doméstica alemã, na época da Reforma e nos séculos subsequentes. Por longo tempo foi costume semanal perambularem pelas ruas os coros das igrejas, cantando corais em frente às casas; em determinadas horas, aos domingos e dias festivos,  conjuntos de trombones - Posaunenchor - tocavam corais na torre das igrejas; e em algumas cidades alemãs, especialmente na Francônia, os vigilantes noturnos anunciavam as horas cantando versos apropriados, com melodias de antigos corais.

 

Influência. O coral exerceu importante influência no desenvolvimento musical: concorreu para o estabelecimento da harmonia moderna; fomentou o canto coral nas escolas; deu origem a novas formas organísticas - prelúdios corais, partiras corais ou corais com variações, fantasias corais -; integrou motetes, cantatas, oratórios e paixões; penetrou em determinadas formas musicais: na sinfonia - Mendelssohn, Liszt; na ópera wagneriana - Tannhäuser, Parsifal; na obra pianística de Schumann - Histoire du soldat; de Stravinski; nos oratórios de Honegger; promoveu uma verdadeira floração folclórica na Escandinávia, como o atestam as pesquisas realizadas na Finlândia por Ilmari Krohn, e na Noruega por Ludwig Mathias Lindeman.

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional