ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

Voz

Última modificação : Sexta, 13 Setembro 2013 16:30


Etimologia. A origem do port. esp. voz, respectivamente de 978 e c.1140, it. voce, do século XII, fr. voix, c.1100, ing. voice, do século XIV, é o lat. vox, vocis, "som da voz, voz". Em alemão, como tradução do port. esp. voz e correspondentes nas demais línguas aqui tratadas, registra-se a palavra Stimme.

 

Conceituação. A voz humana cantada ou falada consiste nos sons que se produzem na laringe e nas cavidades faringo-bucais e que se manifestam sob a forma de vogais ou sons vocálicos.

 

Fisiologia. O estudo da voz humana está ligado não só à fisiologia geral, como também à neurologia, à laringologia, à hormonologia. O aparelho vocal, como instrumento de música, é um mecanismo delicado que durante muito tempo foi objeto de especulações errôneas e controvertidas; trabalhos científicos recentes, entre os quais se destacam os de Raoul Husson, oferecem explicações racionais sobre o comportamento vocal.

 

Respiração. O aparelho respiratório, onde se armazena e circula o ar, é constituído pelo nariz, pela traquéia, pelos pulmões e pelo diafragma. Os pulmões fornecem a força motriz, sob a forma de coluna de ar, que é a matéria-prima das vibrações sonoras. Atua como um fole: o ar é inspirado e expirado num movimento que pode ser distinguido como respiração vital ou automática e respiração fônica, esta permitindo a produção de sons falados e cantados.

 

O controle da respiração é fundamental para a técnica vocal: cabe ao diafragma a tarefa mais importante. Na respiração abdominal seu papel é preponderante; na de tipo clavicular utiliza-se a parte superior do tórax, que, por reter pouco volume de ar, produz baixo rendimento e é desaconselhada. O tipo ideal de respiração conjuga o alargamento natural da caixa torácica com o movimento descendente do diafragma e recebe a denominação costo-abdominal ou torácico-diafragmático. A ação do fole, seja qual for a técnica adotada, deve basear-se no bom senso: ausência de esforços excessivos e de atitudes antinaturais. É na observação do gesto respiratório natural e na  compreensão e controle dos menores detalhes que reside a solução do problema técnico da respiração fônica.

 

Emissão. O órgão essencial do aparelho fonador é a laringe, que se localiza na parte anterior da faringe; é formada por peças cartilaginosas que unem as cartilagens entre si e aos órgãos vizinhos, músculos e uma mucosa. A dimensão da laringe varia segundo a idade e o sexo do indivíduo, sem que, entretanto, seja constatada uma relação direta entre o tamanho da laringe e a altura da voz. Na parte média da superfície interna da laringe existem, de cada lado, duas dobras superpostas e, acima destas, as cordas vocais.

 

Altura e registros. A altura do som vocal é determinada pelo cérebro e depende da excitabilidade no nervo recorrente. O problema dos registros vocais foi amplamente discutido, considerando-se a existência de voz de peito, voz de cabeça, voz mista e voz de falsete. Certos autores não consideram a existência dos registros, eliminando assim os problemas da passagem ou da cobertura dos sons. Outros insistem na delimitação nítida dos registros. Teorias cientificamente fundamentadas explicam o fenômeno da seguinte maneira: existe um primeiro registro, monofásico, grave, para vozes masculinas e femininas, que corresponde à voz de peito. Suas frequências máximas são sol 3, si 3 e ré 4. No segundo registro, bifásico,a frequência é dobrada; é a voz de cabeça para mulheres e crianças, e voz de falsete para homens.

 

As frequências máximas são sol 4 para contralto, si 4 para meio-soprano e ré 5 para soprano. O terceiro registro, trifásico, pequeno registro, ou de "flauta", está uma quinta acima do anterior. Finalmente o quarto registro, quadrifásico, é raríssimo; realiza-se uma quarta justa acima do terceiro; somente algumas vozes excepcionalmente dotadas o possuíram, como as de Mado Robin e Jennifer Johnson.

 

As diferenças de altura entre as vozes explicam-se fisiologicamente. Os homens cantam em registro monofásico e as mulheres e crianças, em registro bifásico, situado a uma oitava superior.

 

Passagem ou cobertura do som. Na execução de uma escala ascendente o cantor verifica uma sensação de esforço, a partir de um certo ponto. Os italianos do século XIX designaram esse fenômeno como "cobertura dos sons abertos" ou "passagem". Observações modernas mostram que se uma contração muscular provoca mudança de posição da cartilagem tireóide, obrigando as cordas vocais a permanecerem retilíneas, a laringe se distenderá e ficará abaixo da posição primitiva. A partir desse momento podem prosseguir as contrações da musculatura glótica, em frequências mais elevadas.

 

Intensidade. A intensidade da voz depende da velocidade com que sai a coluna de ar, isto é, da pressão subglótica, e do tonus das aproximações glóticas. Para um volume importante são necessários ventilação pulmonar adequada, musculatura respiratória potente e, secundariamente, grande capacidade torácica. A utilização do pavilhão faringo-bucal de acordo com técnica apropriada é um fator essencial, pois a diminuição da rigidez das cordas vocais permite a obtenção de grandes intensidades.

 

Timbre. A som produzido pela laringe é muito complexo, mas destituído de cor vocálica; somente ao atravessar o pavilhão faringo-bucal, da glote até os lábios, o som se modifica e adquire cor vocálica ao sair pela boca. Para cada som a faringe eleva o nível do harmônico vizinho ao fundamental, e a cavidade bucal atua sobre outro harmônico. Por conseguinte, cada vogal é produzida por dois harmônicos preponderantes que a caracterizam. Nas altas intensidades só se pode notar uma vogal aberta e brilhante, uma fechada e estridente e uma fechada e espessa. No canto teatral, as exigências de grande potência no agudo reduzem sensivelmente a distinção de timbres; esta só é possível em baixas frequências e intensidades fracas.

 

Classificação das vozes. Chama-se tessitura a região que compreende sons que podem ser emitidos com maior facilidade por cada indivíduo. Primeiramente distinguiam-se as vozes entre as graves e as agudas. A partir do século XVIII, começou-se a destinar papéis a vozes intermediárias. Entre as masculinas classificaram-se as vozes em: barítono e tenor; entre as vozes femininas: contralto, meio soprano e soprano. Outras classificações no teatro musical referem-se às características de timbre: baixo profundo, baixo cantante, soprano dramático, soprano ligeiro, entre outras; diferenças quanto à potência: barítono de ópera, barítono de opereta, entre outras; e quanto ao estilo no uso da voz: tenor wagneriano, barítono de Verdi, entre outras.

 

Atualmente as classificações obedecem a critérios mais precisos, baseados na excitabilidade do nervo recorrente. Assim, pode ser estabelecida uma fórmula que determina a tessitura da voz de cada indivíduo.

 

A técnica vocal. Pode dedicar-se ao canto todo indivíduo dotado de um bom ouvido, que lhe assegure uma afinação precisa, de certas qualidades fisiológicas e de um instinto musical seguro e expressivo. Certas vozes aparentemente medíocres, quando submetidas a um treinamento inteligente, chegam a resultados extraordinários. Há grande quantidade de métodos que em geral divergem sobre detalhes técnicos, mas todos compartilham de certos pontos fundamentais. A arte do canto está baseada numa boa técnica de respiração, da emissão, da utilização das ressonâncias, da dicção (articulação e declamação), do solfejo, do fraseado, da interpretação e da arte cênica (para aqueles que se dedicam à ópera).

 

Os passos a serem seguidos compreendem impostação da voz: a procura de equilíbrio do gesto vocal. Cabe à inteligência  do professor descobrir a voz autêntica de cada aluno e livrá-la do peso das imitações e deformações instintivas no principiante. O controle respiratório é básico e a emissão varia, podendo ser plana, redonda ou coberta, sombria ou opaca. O importante é obter a maior homogeneidade possível do teclado vocal. Quanto ao ataque do som, as opiniões divergem. Para alguns, deve ser emitido após o início da expiração; outros recomendam o golpe da glote, que é um ataque brusco e violento. As tendências se conciliam quando se preconiza a emissão confortável e sem esforço, que se inicia junto com a expiração.

 

O apoio do som é o ponto em que se sente a sua solidez, sua consistência. A finalização do som é sério problema técnico: a expiração deve deter-se com o canto, e somente o trabalho constante permite ao aluno graduar a massa de ar expirado de acordo com as necessidades da frase.

 

A articulação é o arcabouço da dicção. Esse aspecto da técnica relaciona-se indissoluvelmente com a capacidade expressiva do cantor. É preciso que a articulação seja clara, com uma pronúncia precisa das consoantes e a perfeita exploração dos timbres vocálicos.

 

É na interpretação que se encontra a meta do trabalho vocal: o longo aprendizado permite o domínio gradativo dos vocalises, do fraseado, da dicção, podendo-se obter assim, o controle do instrumento vocal humano e sua utilização verdadeiramente artística e expressiva.

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional