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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Cantochão

Última modificação : Sexta, 12 Agosto 2016 15:17


 


Etimologia. O port. cantochão, esp. canto llano, fr. plain-chant, ing. plain chant, it. canto fermo, fermo, lat. firmus, "invariável", todos do século XII, é o lat. cantus planus, "canto igual, invariável". O port. esp. it. canto, fr. ing. chant, é o lat. cantus, "canto". O port. chão, esp. llano, fr. ing. plain é o lat. planus, "plano, igual, nivelado". Canto gregoriano convive com a palavra, nas diversas línguas.

 

Origens. O império romano aceitou da Grécia decadente a virtuosidade instrumental, não a tocar o espírito, mas a meros prazeres sensoriais. Já nas catacumbas romanas, porém, o verbo de Cristo se faz música, que se desentranha da prece e ganha as asas da salmodia. Influências dos cânticos do culto hebraico, em particular, são notórias na gênese desse canto monódico, rigorosamente homófono, e de conceito modal exclusivamente masculino, composto em sistema diatônico, e que repele todo e qualquer acompanhamento instrumental; vai desenvolver-se, na sua íntegra pureza, até o fim do primeiro milênio da era cristã, num crescendo de importância cultural, sobretudo entre os anos 800 e 1000.

 

Santo Ambrósio (c. 333-397), bispo de Milão e sobretudo o papa São Gregório I Magno (c. 540-604), que fundou a Schola Cantorum (Escola dos Cantos), organizou o antifonário e fixou a liturgia, conferem a monodia medieval a sistemática de que necessitava, para que se fixassem as tradições de suas práticas.

 

Evolução. Por isso, o canto da Igreja romana recebeu o nome de coral gregoriano. Mais tarde, foi chamado cantochão (cantus planus), de ritmo livre, em oposição ao canto mensural. Ao lado dos cânticos gregorianos existiam (ou existem), nas liturgias autônomas, o canto ambrosiano, bizantino, galiciano e moçárabe ou visigótico.

 

As tradições do cantochão, semiperdidas, ou adulteradas - sobretudo a partir do século IX -, vêm sendo reconstituídas, em seu esplendor e sua genuinidade, desde o século XIX, graças aos estudos da escola beneditina da abadia de Solesmes, e também à edição Vaticana do repertório gregoriano, organizada por ordem do papa Pio X, de acordo com os resultados daquelas pesquisas.

 

Estilo. Por meio da exegese histórica, estabeleceram, em princípio, quanto à rítmica, um tempo primário, indivisível, fundado em acentos de intenção intelectual ou expressiva, que abstrai de todo compasso: significa a igualdade prática das notas e sílabas; mas também se admitem ritmos compostos e a subordinação do elemento verbal ao elemento musical. Na sua fluidez, a música acaba absorvendo a palavra, e daí a riqueza vocalizante, melismática, do júbilo nos aleluias. Santo Agostinho dizia: "Quem jubila não pronuncia palavras". A expansão do gregoriano além de Roma é a da difusão do cristianismo. A mensagem da nova fé tem como aliada uma música que facilita a catequese.

 

Os tons da Igreja. Essa música provinha da Antiguidade, com escalas ou, melhor, modos, que foram chamados tons da Igreja e conservaram a constituição e nomes gregos, embora, a partir de certa fase, se convertessem em seu sentido, deixando de vir do agudo para o grave, para se orientarem para o agudo.

 

Os modos gregorianos eram oito, quatro principais, autênticos ou autônomos:

. o dórico - partindo de ré e formado pelos intervalos que se encontram sem alteração na oitava de ré a ré

. o frígio - de mi a mi

. o lídio - de fá a fá

. o mixolídio - de sol a sol.

 

E quatro subordinados ou plagais, que conservam o nome dos autênticos, precedido da sílaba hipo:

. o hipodórico - partindo de lá

. o hipofrígio - partindo de si

. o hipolídio - partindo de dó

. o hipomixolídio - partindo de ré).

 

A tônica ou final dos modos plagais é colocada não no primeiro grau da escala tipo, mas no mesmo grau que o modo autêntico correspondente.

 

Os oito modos eram designados por três terminologias paralelas: protus (primeiro), autêntico (ré a ré) e protus plagal (lá a lá); deuterus (segundo), autêntico (mi a mi) e deuterus plagal (si a si); tritus (terceiro), autêntico (fá a fá) e tritus plagal (dó a dó); tetrardus (quarto), autêntico (sol a sol) e tetrardus plagal (ré a ré).

 

Quase todos esses modos podiam ser modificados para que se evitasse o intervalo de quarta aumentada fa-si, severamente prescrito pela Igreja romana medieval, porque representava o "diabolus in musica" (diabo da música), considerado como próprio das paixões humanas. O canto gregoriano depende essencialmente da língua latina; não conhece as acentuações rítmicas da música ocidental, mas apoia-se nas sílabas breves e longas. Caminha com inteira flexibilidade, em andamento geralmente animado. Representa, durante séculos sucessivos, uma forma de música historicamente exclusiva, porque as expansões da música popular, que certamente havia, não eram notadas, e por isso não é possível conhecê-las. A Igreja era o centro não só da vida religiosa, mas também da social e por isso sua música sintetiza a cultura musical da Idade Média, inclusive por absorção e transformação da musicalidade popular.

 

Salmos, hinos e cânticos são os textos do canto gregoriano. Alguns hinos se tornaram tradicionais e nutriram, através dos séculos, a imaginação de compositores. O texto de Pentecostes "Veni Creator Spiritus" (Vem Espírito Criador) surge, por exemplo, na oitava sinfonia de Mahler.

 

 

 

Os modos do cantochão medieval são os antecedentes das escalas modernas. Santo Ambrósio codificou, no século IV, os quatro modos principais, chamados "modos autênticos". Pode-se tocar cada um nas teclas brancas do piano, começando, respectivamente, por ré, mi, fá e sol. Tem-se assim o modo dórico (ré), frígio (mi), lídio (fá) e mixolídio (sol). As notas mais importantes eram a "final" (a mais grave) e a "dominante" (quinto grau) e sobre esta entoava-se a liturgia. A dominante do frígio, originalmente em si, mais tarde deslocou-se para o dó. Já no século VI, são Gregório Magno acrescentou mais quatro modos, denominados plagais, que partiam das dominantes dos autênticos. Mantinham-se os nomes iniciais, aos quais se acrescentava o prefixo "hipo". Cada modo plagal tinha a mesma nota final que o seu correspondente autêntico, mas a dominante era diferente. Um modo podia ser entoado a várias alturas, do momento que se conservasse sua principal característica: a sequência dos intervalos.

 

 

 

 

Abbaye Saint-Pierre de Solesmes



 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional