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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Cantata

Última modificação : Sexta, 13 Novembro 2015 16:29



Etimilogia. O port. esp.ing. cantata, fr. cantate, al. Kantate, todos do século XVIII, é o it. cantata, derivado do it. cantare, lat. cantare, "cantar".

 

Designa genericamente uma peça cantada, por oposição à sonata em instrumento que é soada, e à tocata executada em instrumento de teclado. Do século XVIII até o presente, o termo se aplica a uma obra sacra ou profana com solos, coro e acompanhamento orquestral. Em sua origem, a cantata se confunde com a ópera e o oratório, formas nascidas do mesmo movimento estético: a monodia acompanhada. No século XVI, notadamente na Itália, com o advento do stilo concitato (estilo exaltado), a preocupação de concentrar a expressão numa só voz e a tendência a dramatizar todas as obras, mesmo as destinadas ao concerto, levaram os compositores a introduzir nos madrigais polifônicos solos vocais que gradualmente ganharam evidência até se sobreporem ao tecido polifônico e limitarem as outras vozes à função de acompanhamento.

 

A monodia acompanhada aparece nitidamente nos madrigais de Monteverdi (1567-1643). Este, a partir do seu quinto livro de madrigais (1605), já emprega o baixo contínuo, e chega, nos livros seguintes, à consumada expressão do canto individual (Per monti e per valli  [Por montes e por vales] e Lettera amorosa [1619; Carta amorosa]). Sua primeira ópera escrita em Veneza, Il Combattimento di Tancredi e Clorinda (1624; O Combate de Tancredo e Clorinda) significativamente se intitula cantata dramática.

 

Essa tendência também se afirma, desde 1601, nos Madrigali per cantare e sonare a una e due e tre soprani (Madrigal para cantar e tocar e um, dois e três sopranos), de Luzzasco Luzzaschi (1545-1607), bem como em 1602 nas Nuove musich, de Giulio Cacchini (c.1545-1618), que abrangem 15 madrigais a uma voz, 13 árias e 2 coros, referindo-se o termo madrigal, no caso, a uma forma rítmica que se vale de intensa expressão melódica, obediente aos princípios da declamação próprios da cantata da época e da ópera nascente.

 

Essa corrente de valorização do canto solístico propagou-se de Veneza e Florença a outras cidades da Itália e é secundada, entre outros, por Domenico Megli com as suas Musiche (1602, 1603 e 1609), por Giovanni Brunetti com os Madrigali, Canzonette, Arie, Stanze (Estanças) e Scherzi diversi (1606; Divertimentos diversos), mas sobretudo por Marco da Gagliano (c.1575-1642) com as Musiche (1615) a uma, duas e três vozes com baixo contínuo.

 

Coube, entretanto, a Alessandro Grandi (1586-1630) empregar pela primeira vez o termo cantata, para intitular algumas peças de suas Cantate e arie a voce sola (1620; Cantatas e árias para solo), nas quais a linha melódica se modifica a cada estrofe, permanecendo o baixo inalterado - modelo que passou a ser adotado por outros compositores.

 

A cantata clássica, tal como chegou aos nossos dias, com a alternância de árias e recitativos, os atrativos formais e a expressão brilhante, foi produzida pela primeira vez por Luigi Rossi (1598-1653), que deixou numerosas obras no gênero, muitas delas modernamente reeditadas.

 

Maior impulso à evolução da cantata italiana foi dado por Giacomo Carissimi (1605-1674), cujas obras lhe deram posição proeminente na história da cantata e do oratório, influenciando os compositores italianos, franceses e alemães, graças à plasticidade do seu estilo vocal, à variedade dos acompanhamentos e à busca da verdade expressiva dos textos. Além disso, desenvolveu, ao lado da cantata sacra, predominante até então, a cantata profana, de acentos pitorescos e humorísticos.

 

Ainda no século XVII, distinguem-se na escola veneziana: Pietro Francesco, Cavalli (1602-1676), discípulo de Monteverdi; Antonio Cesti (1623-1669), discípulo de Carissimi, e Giovanni Legrenzi (1626-1690), que deu grande impulso à cantata profana e cujas obras ostentam brilhante suporte orquestral com frequente emprego de solos instrumentais (quatro livros de Cantate e canzonette (1674-1679); na escola bolonhesa: Giovanni Maria Bononcini (1642-1678), Francesco Gasparini (1668-1727). Todos esses compositores são, em primeira linha, autores de óperas, assim como, avultando na escola napolitana, Alessandro Scarlatti (1660-1725), cuja fecundidade (cerca de 600 cantatas a uma e duas vozes com baixo contínuo) e talento criador levaram esse gênero musical ao seu máximo esplendor na Itália. A essa escola pertencem as cantatas, com texto italiano, de Haëndel.

 

Foi somente no começo do século XVIII que a cantata se difundiu na França com os três volumes de Cantate françaises (1708, 1714, 1728) de André Campra (1660-1744), com os quatro livros de cantatas a uma e duas vozes (entre 1703 e 1715) de Nicolas Bernier (1664-1734) e, entre outros, com obras de François Couperin (1668-1733) e Louis Clérambault (1676-1749). Foi também cultivada na Inglaterra, onde assumiu a feição dos tradicionais anthems.

 

Enquanto na França floresceu apenas a cantata profana, de menores proporções, na Alemanha propagou-se principalmente a grande cantata sacra, com Reinhard Keiser (1674-1739), Johann Matteson (1681-1764), George Philipp Telemann (1681-1767), que substituíram os textos bíblicos por libretos encomendados aos poetas da época e deram às árias a forma da ópera italiana.

 

Mas foi com Johann Sebastian Bach (1685-1759) que a cantata atingiu sua mais alta expressão. Variedade e amplitude de meios, grande valorização dos coros e solos, consumada perfeição técnica e profundeza de pensamento estão presentes nas 198 cantatas sacras que chegaram até nós (muitas foram perdidas); e não são inferiores as cantatas profanas de Bach. Abandonada por algum tempo, a cantata voltou a ser ocasionalmente cultivada no século XIX por Beethoven (1770-1827), Weber (1786-1826), Schubert (1797-1828), Liszt (1811-1886), Brahms (1833-1896), Debussy (1862-1918), mas sem que se produzissem obras dignas da fama desses grandes nomes.

 

Com alterações nas características formais, a cantata mantém seu lugar na produção musical do século XX, figurando entre as de Vaughan Williams (1872-1958), Stravinski (1882-1971), Prokofiev (1891-1953), Honegger (1892-1955), Villa-Lobos (1887-1959) e Darius Milhaud (1892-1974).


 

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional