ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

"Ariano Suassuna e eu"

Última modificação : Sexta, 25 Julho 2014 14:08


 

 

2006 foi um grande ano para mim. Compus 10 obras, lancei meu primeiro CD como compositor, estava com a vida de compositor agitada! E 2007 não foi muito diferente: obras compostas para o exterior, estreias nos EUA e na Inglaterra por músicos de lá... mas aí aconteceu o que nunca havia acontecido comigo. Já havia ouvido falar de bloqueio criativo – artistas que precisavam criar mas não conseguiam. Mas comigo foi diferente. Eu realmente achei que tinha acabado o meu assunto, que já tinha feito toda a música que eu tinha para fazer, que não precisava dizer mais nada: tudo o que eu tinha dentro de mim já estava composto, já tinha virado música. Eu, aos 36 anos de idade, com 56 obras compostas, encerraria minha carreira.

 

Foi quando viajei, no final de outubro, para uma turnée de palestras nos EUA (6 palestras em universidades americanas), uma estreia nos EUA, outra estreia na Inglaterra e alguns outros contatos na Europa. Viajei eu, minha crise artística e “O Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna. Aos poucos, durante a viagem, o Suassuna foi se sentando mais perto de mim que minha crise. Em cada cidade que visitei naquela viagem (Tom Moore e Miles Davis também estavam em parte dela, mas isso é outra história...), senti Suassuna ao meu lado. Até que, em Durham, tomando banho no condomínio Station 9, depois de já ter visitado 11 cidades, me veio uma certeza, impulsionada pela leitura d”O Romance”: eu ainda tinha muita música para compor! Eu tinha um Brasil inteiro, que morava dentro de mim desde sempre, para compor!

 

No ano seguinte, em homenagem ao Mestre, compus “Pr’os Lados do Piauí, entre a Turquia e a Alemanha”, frase que sua personagem “Tia Filipa”, fala n”O Romance”, ao tentar explicar a Dinis “onde eram todos aqueles lugares maravilhosos, chamados Lorena, Alemanha, Baviera, Gênova e Bruxelas”. Em 2009, quando estava novamente nos EUA, como Artista-em-Residência na Duke University, fiz outra homenagem: dediquei a Ariano Suassuna o meu “Quarteto Brasileiro Nº 2”, de forte influência nordestina. Essa é a minha música no CD “Prelúdio 21 – Quartetos de Cordas”, que foi indicado ao Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Música Clássica”. Incluí novamente, ao lado do “Quarteto Brasileiro Nº1” (que homenageia Villa-Lobos), no meu CD “Ao Mar”.

 

Portanto, ontem, quando Ariano Suassuna nos deixou, além do Brasil ter perdido um de seus maiores, perdi também o salvador da minha música. Devo a ele, ao seu “Romance da Pedra do Reino”, o meu resgate. Mas, muito mais que isso, devo a ele a lembrança de um olhar para mim mesmo, para nós todos, que por vezes a gente se esquece. Um olhar que não deixe nada de fora, que inclua tudo o que somos.

 

(Quem quiser conhecer o 2o movimento do meu Quarteto Brasileiro Nº 2, dedicado ao Ariano Suassuna, interpretado pelo Quarteto Radamés Gnattali, pode ouvir no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=HCKMop39ty8)




SergioRobertoOliveira V

 

Composer/ Compositor

sergio@sergiodeoliveira.com

www.sergiodeoliveira.com

www.soundcloud.com/sergio-r-de-oliveira

www.facebook.com/compositorsergiorobertodeoliveira

www.youtube.com/composerSRO

Twitter: @srdeoliveira