ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

TECLADO DE CORES

Última modificação : Sexta, 17 Junho 2016 14:24


 


Não há como falar de um teclado áfono, feito para emitir cores que inundem sinestesicamente o palco, durante a execução de uma peça específica, sem nos determos no nome do compositor russo Alexander Skryabin (1872-1915).

 

Tendo revelado dotes instintivos de pianista e de compositor já na infância, Skryabin estudou no Conservatório de Moscou e tornou-se pianista de méritos, sobretudo tocando Chopin (1810-1849) e Liszt (1811-1886), que foram inclusive suas duas grandes influências iniciais em suas composições.

 

A partir do início do século XX, o compositor passa a ler Filosofia, interessando-se particularmente pelas ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sobretudo por sua exaltação da arte como única justificativa aceitável para o sofrimento, bem como por sua exaltação anticristã e ateia do poder do que o filósofo chamava de "super-homem" - ideia que influenciou muito os chamados "críticos da cultura", mas também foi historicamente usada como justificativa para os desmandos da ultradireita nazifascista dos anos 30 e 40.

 

De Nietzsche, Skryabin passou à Teosofia, uma doutrina ocultista globalizante, fundada em Nova York em 1875 pela ocultista russa Helen Petrovna Blavatsky (1831-1891) que, em 1888, publicou o livro que se tem como texto básico da doutrina, intitulado A Doutrina Secreta.

 

Trata-se de um ideário panteísta, que pretende unir Ciência, Religião e Filosofia, com base em ideias budistas, hinduístas e espíritas, postulando, por exemplo, que a morte não existe como fim, mas apenas como mudança de estados de consciência, e que o homem se salva quando, pelo estudo e pela intuição, consegue emancipar-se das limitações da matéria, promovendo assim a realização consciente da Imortalidade - uma ideia também de certa forma postulada pelo Cristianismo.

 

A partir da aceitação dessas ideias, por volta de 1905, Skryabin passou a fazer uma música mais pessoal e elaborada, passando a utilizar, por exemplo, uma harmonia que se mantém constante por longos períodos, através de divisões simétricas da oitava, pelo emprego de trítonos, escalas de tons inteiros e acordes de sétima diminuta, enquanto a linha melódica fica livre e cheia de ornamentações.

 

A partir desse momento de sua evolução, e já se aproximando de sua prematura morte, Skryabin se convenceu de que a arte - e sobretudo a música - tinha um objetivo espiritual, que consistia no que ele chamava de um mysterium, para cujo desvendamento todos os sentidos do Homem deviam reunir-se.

 

Tomado por essa convicção, ele compõe, entre 1908 e 1911, a sinfonia Prometeo - O Poema do Fogo para cuja execução o compositor concebeu o que chamamos de teclado de cores: trata-se efetivamente de um teclado cromático, que integra o instrumental da orquestra concebida para a peça, mas que, quando as teclas são acionadas, não emite sons mas uma luminosidade colorida que inunda o palco.

 

Esse teclado foi planejado de forma que cada tecla acionada liberasse uma luz de cor específica, segundo o chamado ciclo das quintas (sequência de notas que, dentro da escala cromática, estabelece a correspondência dos sons da escala no sentido do deslocamento da tônica para qualquer das notas resultantes dos sucessivos intervalos de quinta).

 

Com base nisso, e levando em conta o seu teclado de cores, temos a seguinte correspondência entre as notas (que não se ouve) e as cores (que se vê): dó - vermelho; sol - alaranjado; ré - amarelo; lá - verde; mi - azul bem claro; si - igual ao mi; fá sustenido - azul celeste; dó bemol - azul forte; lá bemol - violeta; mi bemol - cinza-aço; si bemol - igual ao mi bemol; fá - marrom.

 

A obra personalíssima de Skryabin, interrompida com sua morte prematura em 1915 - quando ele tinha 43 anos -, com seus fundamentos filoteosóficos de caráter metafísico e panteísta, pode ser considerada como o ponto de exacerbação culminante do pós-romantismo musical.

 

Nesse sentido, parece oportuno lembrar que, pouco antes de morrer, ele projetava a criação de uma obra que se chamaria Mysterium, e que seria um autêntico acontecimento pan-sensorial, onde a plateia participaria dançando, enquanto no palco a execução orquestral seria novamente acompanhada de luzes e cores, bem como de perfumes, do que resultaria, na sala de concertos, uma ação multissensorial de sons, luzes, cores, aromas e contatos físicos (através da dança).

 

Essa viagem à histeria mística, foi também uma jornada para além da tonalidade, em direção a uma dissonância flutuante, geralmente baseada no "acorde místico" - dó - fá sustenido - si bemol - mi - lá - ré.

 

 

Notas:

. Trítono é um intervalo harmônico de três tons inteiros que resulta no que se chama, em Teoria Musical, de uma quarta aumentada. O trítono é dissonante e de difícil entonação na melodia, razão pela qual, na música medieval, o chamavam de diabolus in musica.

 

. Escala de tons inteiros (também chamada de escala ou gama hexafônica) consiste em uma sucessão escalar de apenas seis notas dentro da oitava, ficando todas elas a um intervalo de um tom inteiro uma da outra. Essa escala dissolve o sentido de tonalidade, permitindo apenas

a construção de acordes muito semelhantes, já que feitos apenas a partir da superposição de duas terças maiores. Debussy (1862-1918), que vem a ser o criador (pré-) moderno dessa gama hexafônica, usa-a muito em seus Prelúdios para piano, particularmente em "Voiles" (2º prelúdio do 1º livro).

 

. Acordes de sétima diminuta - acordes cujas notas tem um intervalo de sete graus na escala, diminuída em meio tom. É também um acorde dissonante, que consiste na superposição de três terças menores.

 

 

Vídeos:


Acorde místico de Scryabin "Prometheus scale"

http://youtu.be/DETGUVkS_cw

 

Prometheus The Poem of Fire, Op. 60

http://youtu.be/5GEwho6Dbnc




 

 

Fonte:

Sobre os instrumentos sinfônicos e em torno deles, José Alexandre dos Santos Ribeiro, Editora Record