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VIOLÃO DE 7 CORDAS

Última modificação : Segunda, 31 Agosto 2015 16:26



 

A forma clássica do violão, como se determinou nas oficinas sevilhanas de Antonio de Torres Jurado (1817-1892), na metade do século XIX, permaneceu invariável ainda que tenha servido de ponto de partida para fantasias e experiências de todos os tipos. Muitas dessas variantes sobre o arquétipo original são vistas ainda hoje como excentricidades ou caprichos de visionários, já que a popularidade e a divulgação que conseguiu a forma atual do violão tende a fazer parecer anormais ou extravagantes outras formas e disposições das partes desse instrumento.

 

No período de determinação das características do violão moderno, durante a primeira metade do século XIX, os luthiers e os próprios músicos propuseram alternativas à disposição habitual de 6 cordas para melhorar e consertar defeitos ou carências do violão do século XVIII e do nascente violão clássico, ainda que muito frequentemente esses pretensos novos inventos não fossem nada mais que a aplicação de recursos já presentes em instrumentos do passado.

 

Em geral, considera-se que o estabelecimento do violão moderno com 6 cordas simples aconteceu na França por volta de 1780. Entretanto, ele não se consolidou como habitual até o século XIX, sobretudo a partir da influência do violão-lira, um instrumento que, com sua caixa que imitava os instrumentos da antiguidade greco-romana, se transformou em protagonista da moda nos salões da época napoleônica. Esse instrumento destinado principalmente às mãos das damas e senhoritas das classes abastadas, já havia renunciado às cordas duplas para conseguir uma maior simplicidade de manejo e porque não necessitava do volume sonoro do violão espanhol tradicional.

 

Na península Ibérica, enquanto isso, o violão se encontrava desde a metade do século XVIII em um período de transição, no qual o antigo violão de seis ordens - duplicadas ou em uníssono - convivia com o novo violão de 6 cordas simples. De qualquer maneira, se a difusão internacional do violão de 6 cordas partiu da França, ela não se produziu sem a transcendental contribuição de um dos mais importantes compositores para esse instrumento, o músico barcelonês Fernando Sor (1778-1839).

 

O certo é que, já antes de o violão espanhol adotar o sistema de 6 cordas simples do violão-lira, os violonistas perceberam a pouca consistência do registro grave desprovido agora de bordões ou ordens duplas. Além do mais, no caso da música de concerto mais elaborada, a pouca maneabilidade das cordas graves quando a mão esquerda tinha que ser usada sobretudo nas cordas agudas, nas quais se desenvolvia a melodia e a maior parte da estrutura harmônica, significava outra limitação grave. Para superar esses inconvenientes, foram acrescentadas cordas graves livres à parte mais distante dos dedos da mão esquerda, já que eram cordas sobre as quais não estava previsto que seria executada nenhuma melodia.

 

O primeiro cordofone com cordas adicionadas foi o decadorde (10 cordas), que foi patenteado pelo luthier parisiense Pierre-René Lacôte (c.1785-c.1868). Esse instrumento foi fabricado a pedido do célebre compositor e violonista italiano Ferdinando Carulli (1770-1841), que compôs algumas peças e também escreveu um Méthode complète para o decacorde. Ele também afirmava que essa variação era mais simples de tocar que o violão de 6 cordas. De fato, parece que precisamente as cordas adicionadas facilitavam a execução de determinadas harmonias e arpejos.

 

O decacorde padrão de Carulli constava das 5 cordas agudas do violão mais 5 cordas graves que descendiam diatonicamente a partir do dó. Os fios das 5 cordas graves corriam por cima do largo braço, mas os trastes da escala só ocupavam a parte direita do mesmo, pois estava previsto que essas cordas ficariam soltas.

 

Outros modelos de decacorde posteriores e alheios ao sistema de Carulli tinham 6 ou 7 cordas trasteadas contra 4 ou 3 graves livres, enquanto outros modelos optaram por renunciar aos braços largos e montar um braço convencional, já que as cordas graves soltas não precisavam estar sobre a escala.

 

Este último foi o sistema empregado no heptacorde fabricado, também, por Lacôte para o violonista Napoleón Coste (1805-1883), que consistia em um violão convencional com uma sétima corda mais longa, que corria livre e paralela ao braço, partindo de um suporte que sobressaía do cravelhame onde estavam as outras seis, à maneira das antigas teorbas. Se com esse heptacorde de Coste e Lacôte aparece definido, então, o primeiro violão de 7 cordas de tipologia concreta, não faltam também antecedentes remotos. De fato, foi conservado um exemplar do violão de batente (de dedilhado) de Francisco Sanguino (ativo em Sevilha em 1759) com sete ordens duplas. Por outro lado, o célebre violonista Federico Moretti (1769-1839) em seu Princípios para tocar o violão de seis ordens (Madri, 1799), declarava que ele mesmo usava o violão "de sete ordens simples", instrumento para o qual compôs algumas peças e muitas obras de câmara com flauta, violino e viola. Infelizmente, Moretti nunca concretizou a disposição e função dessa sétima corda, por isso não é possível precisar com exatidão suas características.

 

A partir de 1840 até a década de 1930, proliferou na Europa um sem-número de violões com múltiplas cordas graves, já colocadas fora do braço ou em um braço suplementar e que adotavam às vezes curiosas denominações. Atualmente, no mundo do violão clássico, ainda se utilizam instrumentos de 8 cordas, mas talvez a variante mais divulgada tenha sido o violão de 10 cordas. Apesar de seu largo braço e de as cordas adicionais se encontrarem sobre a escala, normalmente elas são tocadas igualmente soltas, já que os dedos da mão esquerda dificilmente podem chegar a tocá-las senão à base de posições forçadas do punho. Por outro lado, o repertório do alaúde antigo tampouco exige muita manipulação dessas cordas, a não ser como notas básicas da função harmônica.

 

No mundo da música contemporânea, o violão de 7 cordas continua o preferido dos músicos mais jovens, mas também de guitarristas de jazz ou de country.

 

O violão de 7 cordas também é um instrumento indispensável nos grupos de choro e de samba do Brasil. Foi idealizado pelo violonista Artur de Souza Nascimento (1886-1957), conhecido como "Tute", com a finalidade de completar as escalas descendentes das baixarias, um recurso melódico que só utiliza as cordas graves, característico desse gênero musical. Nesse caso, a sétima corda se afina em dó no lugar de si para maior conveniência da tonalidade das peças.

 

No México se usa o chamado "violão sétimo", com sete ordens duplas, mas, em outras culturas não latinas, também foram utilizados e ainda se utilizam violões de 7 ou mais cordas, sempre com a finalidade de ampliar as possibilidades dos baixos.

 

Um dos violões de 7 cordas mais famoso é o chamado "violão russo" ou "violão cigano", conhecido e usado na Rússia e em países da antiga URSS desde o final do século XVIII. Trata-se de um instrumento de afinação específica muito diferente do violão convencional, já que se baseia em uma disposição clássica em terças que dá um acorde aberto de Sol maior (ré1 - sol 1 - si 1 - ré 2 - sol 2 - si 2 - ré 3), com uma variante mais complexa chamada "afinação cigana" (ré 1 - sol 1 - si 1 - sol 2 - ré 2 - dó 3 - ré 3). Por fim, também existe uma variante do violão russo que incorpora um segundo braço com 4 ou 5 cordas graves adicionais.

 

Napoléon Coste (1805-1883) foi o principal violonista e compositor francês para violão de 7 cordas durante a época romântica. Em um momento no qual esse instrumento alcançou a sua máxima popularidade através de músicos estrangeiros, Coste adotou o estilo do seu mestre, Fernando Sor (1778-1839), ainda muito ligado ao classicismo, e o desenvolveu segundo a nova estética do romantismo pianístico que acontecia naquela época na França.

 

 

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Fonte:

Instrumentos Musicais, Editora Salvat, 2013 - Fascículo 62