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Doutrina dos afetos

Última modificação : Sexta, 29 Julho 2016 14:36


 

 

A Teoria ou Doutrina dos afetos (em alemão, Affektenlehre) remonta à Antiguidade, pois para os gregos um determinado modo musical poderia influenciar os homens de diferentes maneiras, podendo a música servir de forma ético-moral. Por exemplo, o modo Dórico poderia ser usado graças a sua serenidade, o Frígio por suas características valentes e guerreiras e já o modo Lídio era desaconselhável por possuir características afeminadas (GATTI, 1997, pag.16).

 

A palavra affectus (verbete latino) tem a ver com a palavra grega “pathos” que significa cada estado do espírito humano, sofrimento e emoção da alma. Platão enumera quatro afetos que são prazer, sofrimento, desejo e temor; já Aristóteles, diferencia onze tipos baseados na mistura de prazer e sofrimento: desejo, ira, temor, coragem, inveja, alegria, amor, ódio, saudade, ciúme e compaixão. Esta visão está proposta na obra "Retórica de Aristóteles". Segundo ele, a música possuía a qualidade de transmitir impressões e criar diversos estados de ânimo.

 

Durante o Renascimento, período em que ocorreu uma mudança de pensamento devido ao Humanismo, o retorno da cultura greco-romana e da disseminação do conhecimento, houve uma prática em que os compositores passaram a ter uma preocupação em como representar o texto na música (séc.XVI). Isto ficou conhecido como música reservata, onde o sentido musical deveria ajudar no entendimento do conteúdo textual.

 

"Reservada" porque provavelmente restringia-se à casa de um determinado mecenas, onde as novidades dessa nova prática seriam a inclusão de cromatismos, ornamentos, variedade modal e contrastes rítmicos. A Teoria dos Afetos, no Período Barroco, foi possivelmente uma evolução da Música Reservata. Os dois períodos desenvolveram o mesmo princípio mas, a diferença fundamental entre eles está no método de aplicação , pois na Renascença "a harmonia é mestre da palavra" e no Barroco "a palavra é mestre da harmonia", como nos diz Monteverdi. O Barroco possuía afetos extremos saindo de uma violenta dor para um trabalho exuberante. É fácil perceber que a representação dos afetos evidencia um vocabulário mais rico do que aquele que era feito na música reservata.

 

Sabe-se que a teoria ou doutrina dos afetos deu-se no período Barroco por volta do século XVII, baseada em uma antiga analogia entre música e retórica (disciplina que tem por objetivo estudar a produção e análise do discurso). A inovação do recitativo deu aos teóricos uma ampla ocasião para observar o paralelismo entre a música e o discurso (BUKOFZER, 1947, p.388). Os músicos do Período Barroco buscavam novas tendências de expressão musical e, sobretudo nesse período apareceu uma de suas principais características, a busca por uma forma de linguagem musical que servisse ao texto de maneira que os sons pudessem exprimir de fato os sentimentos, como amor, ódio, felicidade etc.

 

René Descartes (1596-1650) foi um pensador que influenciou profundamente o pensamento do Período Barroco. Em 1638, escreveu sua primeira obra teórica, intitulada Compendium Musicae, com base na obra Institutione Armoniche do teórico Gioseffo Zarlino (1517-1590). Ele trata da música pela razão, pela mensuração matemática da afinação dos modos, procura situar o intérprete e seu público como "almas sentindo música". Na sua última obra, o tratado "As Paixões da Alma", que foi publicado em 1649 na Holanda e na França, para responder as perguntas da princesa Palatina, Descartes descreve vários estados emocionais e seu processo no corpo humano.

 

As Paixões da Alma se divide em três partes, a primeira fala das paixões em geral e de toda a natureza do homem, a segunda fala das seis paixões primárias, o número e a ordem das paixões, e a terceira sobre as paixões específicas.

 

Os teóricos que tentaram classificar e sistematizar os recursos da Teoria dos Afetos foram principalmente os alemães. A discussão da Doutrina (ou teoria) dos Afetos começou com os trabalhos de Nucius, Cruger, Schonsleder e Herbst, e tornou-se mais explícita com Bernhard, finalmente se cristalizando de forma definitiva com Vogot, Mattheson, e Scheibe ( BUKOFZER, 1947, p.388).

 

Johan Mattheson (1681-1764) na obra Der Vollkommene Capellmeister (1739), aborda os afetos na música, com indicações composicionais, e expõe uma nova visão, onde dá ênfase à necessidade do compositor conhecer os afetos e as paixões. O compositor de música instrumental deveria usar o recurso adequado para cada sentimento como, por exemplo, para a alegria, utilizar intervalos largos, e para tristeza intervalos pequenos.

 

Joachin Quantz (1679-1773) escreveu Versuch einer Aneisung die Flote Tranversiere zu Spielen (1752) que apresenta elementos de técnica e estilo de execução para flauta, podendo servir para música vocal e para outros instrumentos. Para ele, o bom intérprete deve saber reconhecer as representações dos afetos, e menciona como fazer esse reconhecimento.

 

Os afetos e as tonalidades foram também discutidos pelos autores Marc Antonie Chapentier, mestre de capela da Sainte Chapelle de Paris, na obra Règles de Composition, e Jean-Phillipe Rameau (1683-1764), compositor e teórico francês no seu Traité de I’Harmonie (1772). O próprio Mattheson na obra Das Neu-eroffnet Orchestre (1713) abordou extensamente o assunto.

 

Quanto aos ornamentos, foi bastante conhecido o trabalho de Francesco Geminiani (ca.1687-1762) intitulado The art of playing on the violin, com orientações especificas sobre ornamentos e afetos.

 

Apesar de formulada no Barroco, ideias similares já eram encontradas na Grécia Antiga na doutrina do ethos aplicada à teoria musical. No período Rococó e no pré-Classicismo a doutrina teve grandes expoentes em Carl Philipp Emanuel Bach e na Escola de Mannheim. Durante o Classicismo a doutrina foi relativamente esquecida, mas retomou vigor com os românticos. Conceitos similares são encontrados também na música não-ocidental, como no sistema de ragas indiano. A música popular contemporânea ainda faz extenso uso da doutrina dos afetos, ainda que o termo seja raramente aplicado, o que se prova na facilidade do público em identificar rapidamente uma melodia triste ou jovial. O cinema e a televisão também se valem do conceito para enfatizar emoções definidas em suas produções visuais através da associação de trilhas sonoras adequadas a cada contexto.

 

A doutrina teve uma aplicação particularmente importante no desenvolvimento da ópera. A opera seria se estruturava sobre diversas convenções, e as árias se construíam sobre modelos padronizados para cada tipo de emoção a ser ilustrada.

 

Nem todos os compositores chegaram a um consenso em relação às tonalidades e sua influência nos afetos, tornando desse modo a concepção dos afetos na música um conceito que tende para uma interpretação pessoal. Mas, o que devemos portanto salientar é a essência desse pensamento, ou seja, a música e quais emoções ela pode despertar no ouvinte e os recursos composicionais que são mais adequados para evidenciar a representação dos afetos.




 

 

 

Fontes:

Artigo de Fábio de Melo (13/07/2011) in historiadamusica2011.blogspot.com.br

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