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Nona Sinfonia de Beethoven, A

Última modificação : Domingo, 17 Dezembro 2017 11:36




LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770 – 1827)

ALEMÃO – ERA CLÁSSICA – 398 OBRAS 


NONA SINFONIA, EM RÉ MENOR, OP.125 “AVEC CHOEURS” - CORAL 

Allegro ma non troppo, um poco maestoso (18:06)

Molto vivace (11:28)

Adágio molto e cantabile (17:21)

Presto – Allegro (25:34) 

 

“Consegui! Consegui! Enfim, encontrei a Alegria”. Assim jubiloso, Beethoven acolheu em seus aposentos o seu secretário, Schindler. Imediatamente sentou-se ao piano e dedilhou-lhe a façanha. Encontrara, afinal, a solução buscada há anos: musicar os difíceis versos de An die Freude (Ode à Alegria) de Schiller. Depois de 32 anos de hesitações, de idas e vindas, de prostrações, deu então por acabada a Nona Sinfonia.

 

Quando moço ainda em Bonn, Ludwig van Beethoven comoveu-se com o conteúdo do poema ao lê-lo em 1792, impressionando-se para sempre com a maravilhosa exaltação à fraternidade humana dos versos de Schiller. Beethoven concluiu sua obra-prima somente em fevereiro de 1824, durante o seu Último Período (1817 – 1827). A Nona Sinfonia revelou-se extraordinária. Dotara-a de uma tal retumbância heróica que só ele, até então, conseguira dar à música alemã. O público, desde a primeira audiência, ocorrida no Karntnertor Theatre de Viena em 7 de maio de 1824, maravilhou-se. O passado, o tumulto revolucionário, aflora em vários momentos ao longo da execução, mas sua beleza deve-se ao seu carisma. É uma apologia aos tempos futuros, à moradia do Elísio, ao devir, quando então seremos um mundo só.


Apesar da obra ter sido dedicada ao rei Frederico Guilherme III da Prússia, que como todos os monarcas da sua época era hostil aos ideais de liberdade, a obra-prima de Beethoven apresenta o paradoxo de ser entendida como um hino da emancipação do mundo europeu dos tempos feudais, liberto da tirania e das cargas da servidão. A alegria que a Nona exalta não se perdera num tempo remoto, numa arcádia sem volta. Ao contrário, a alegria e a felicidade estão ao nosso alcance logo ali em frente, bastando que superemos as nossas estreitezas culturais e a mediocridade política que nos cerca. Entende-se porque a atual União Européia (hoje majoritariamente republicana e democrática) escolheu a Nona Sinfonia como o seu hino oficial. Mesmo com os percalços que iremos sofrer aqui e ali para chegarmos ao governo universal no século XXI, essa obra continuará sendo o maravilhoso fundo musical para que as Filhas do Elísio sintam-se estimuladas a estender seus braços fraternos enlaçando a humanidade inteira.


A Nona Sinfonia foi escrita para a Sociedade Filarmônica de Londres, com um coro de vozes gloriosamente entoando o poema de Schiller. Em 7 de maio de 1824 Beethoven deu um concerto de gala do Karntnertor Theatre de Viena  onde a apresentou ao público. No final do concerto houve um delírio total da platéia, sem que Beethoven sequer percebesse, devido ao seu estado avançado de surdez. Uma cantora virou-o ao público para que ele recebesse os aplausos. Essa foi a última vez que Ludwig van Beethoven pisou num palco. 

 

Em nossa era secular, muitos não são mais capazes de dar credibilidade às verdades idealísticas que Schiller tão atrevidamente proclamou em seu poema, celebrando a alegria e a liberdade acima de tudo, ante um Deus que habita “acima das estrelas”. Mas se olharmos para a Nona como o produto de uma tentativa de renovação desses ideais, escrita num tempo em que a tirania política havia retornado ao mundo europeu depois de 1815, uma sinfonia que se originou de um esforço para instilar novamente alguma esperança num mundo então desesperado da afirmação de sobrevivência de tais ideais, então podemos ver que o ceticismo moderno involuntariamente tende a replicar o desalento político do tempo em que ela foi criada. Ela abrange relevâncias maiores e significados múltiplos que lhe têm dado um status incontestável como modelo de transformação humana.


Entre esses existe a percepção de que o seu sublime e edificante simbolismo abraça não somente milhões de pessoas, mas uma crença num mundo onde o destino delas importa tanto quanto o de cada indivíduo. Ela pode ser claramente vista como a mais ampla expressão musical de Beethoven – conforme ele próprio dizia que “a arte não tem limites”, que o artista se esforça incessantemente porque “ainda não alcançou o ponto que o seu melhor gênio só ilumina como um sol distante”. Ao utilizar a Ode à Alegria para se dirigir diretamente à humanidade como um todo, Beethoven transmite a luta individual e de milhões para abrir seu caminho experimentando desde a tragédia até o idealismo e para preservar a imagem da fraternidade humana como uma defesa contra a escuridão. 

 

A ORIGEM DA ODE À ALEGRIA -  Friedrich von Schiller (1759 – 1805), compôs  a Ode para que um amigo seu, um franco-masson, a cantasse com seus companheiros nas lojas da irmandade. Schiller, em apenas 18 belíssimas estrofes, celebrava os valores do Iluminismo (o cosmopolitismo, a superação das desavenças nacionais, a pregação da tolerância e a consciência de pertencer-se a um mundo só). Beethoven, na época um entusiasta republicano, embebido pelos ideais da Revolução Francesa de 1789, sentiu-se tentado em transformar o que lera em algo imorredouro. 

 

ODE À ALEGRIA,  Friedrich von Schiller (1759 – 1805) *

“Irmãos, cessem estes sons! Permita-nos cantares mais gratos e cheios de júbilo”. (Ludwig van Beethoven) 

Alegria, Filha e Elísio,

Linda centelha divina,

Penetramos bêbados de poderes ígneos

Teu santificado mundo celestial!

Teu feitiço reúne

O que parte o rigor da moda;

Por onde adejam tuas asas,

Serão os homens todos irmãos. 

A quem resulta supremo lance

De ser sincera a amizade,

Ou da conquista da graça feminina,

Pois seu júbilo não disfarce!

Mesmo quem sua apenas chame,

Uma única alma em toda terra!

E quem jamais pode, em prantos

Que se poupe desta confraria. 

Bebam os seres todos a alegria

Dos seios da natureza.

Que todos, bons e maus,

Sigam suas trilhas róseas.

Ela nos presenteia com beijos e vinhos

E um amigo até à morte,

O prazer é dado mesmo ao verme,

E lá está o querubim frente a Deus!

Voar alegre com os astros,

Pelo plano resplandecente do céu,

Percorrerei, irmãos, vossos caminhos

Rejubilantes, como um herói face à vitória.  

Senti-vos abraçados, multidões!

Um ósculo ao mundo todo!

Irmãos! Na morada estelar

Há de estar um Pai querido

Prostai-vos, multidões!

Presente o Criador, oh mundo!

Buscai-O sobre a morada estelar!

Para além dos astros Ele estará!


(*) título original “Ode à Liberdade”, que foi mudado por problemas políticos .




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