ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

BEETHOVEN, LUDWIG VAN (1770-1827)

Última modificação : Domingo, 24 Novembro 2013 11:36


17/12/1770, BONN / 26/03/1827, VIENA

ALEMÃO – ERA CLÁSSICA - 398 OBRAS 


 

Ícone supremo da música ocidental, Beethoven consolidou o conceito popular do artista que, isolado da sociedade, supera a tragédia pessoal para realizar seu objetivo e tornar-se um herói. Designando-se como "Tondichter", ou "poeta do som", sua música espelhava sua crença no prevalecer sobre a forma tradicional e, assim, pavimentar o caminho para o romantismo musical. A música invariavelmente intensa de Beethoven toca em todos os pontos da escala emocional, indo da melancolia mais soturna à celebração mais exultante.

 


Beethoven entrou em cena num momento histórico particularmente favorável. Viveu numa época em que novas e poderosas forças começavam a manifestar-se na sociedade, forças que o afetaram profundamente e repercutiram em sua obra. Beethoven, tal como Napoleão e Goethe, foi filho das gigantescas convulsões que vinham fermentando ao longo de todo o século XVIII e que eclodiram com a Revolução Francesa. Historicamente a obra de Beethoven foi construída de acordo com as convenções, os gêneros e os estilos do Período Clássico. Mas as forças externas e a força do próprio gênio levaram-no a transformar esta herança e fizeram dele a origem de muito do que veio a caracterizar o Período Romântico. Foi um grande amigo e admirador de Goethe. 


Começou a aprender piano com seu pai, Johann, que era tenor no coro da corte. Johann ensinava canto e era um pianista de razoável talento e também violinista. Sua carreira começou a declinar com a morte de seu pai e entregou-se à bebida depois da morte da esposa, Maria Magdalena Keverich.

 

Beethoven deu seu primeiro recital de piano aos 7 anos; com 8 começou a ter aulas de piano, violino e viola, e aos 11 tornou-se substituto do organista Christian Gottlob Neefe, o qual tornou-se seu tutor. Foi Neefe quem subsidiou os estudos e viagens de Beethoven. Durante sua primeira estadia em Viena tocou para Mozart, que logo reconheceu seu talento. Devido à morte da sua mãe e seu retorno a Bonn, Beethoven não pode ter aulas com Mozart. Mais tarde ele teve aulas com Haydn, o que não durou muito pela diferença de estilos. Na época da adolescência, Beethoven teve contato com as idéias eletrizantes de reforma, liberdade e irmandade do Iluminismo, comum em boa parte da Europa. A obra de Beethoven é dividida em três períodos, sendo que a ordem cronológica das peças não coincide exatamente com os números de opus, porque certas obras da mocidade  só foram publicadas muito posteriormente. Mas, em geral, serve para orientação a seguinte indicação: a primeira fase vai de opus 1 até opus 48; a segunda, de opus 53 até opus 98; e a terceira, de opus 101 até opus 135. 



O “Primeiro Período”  (1792 – 1803) começa com a música “galante”, de sociedade, no sentido do século XVIII. Construiu suas obras baseadas em Bach, Mozart e Haydn. Neste período, suas sonatas são as que mais revelam sua dependência em relação à tradição clássica. Mas logo se fazem ouvir sons diferentes, de rebeldia e de emoção patética.  Como exemplo, podemos citar: Sonata Patética Opus 13 (1798); Septeto para clarinete, trompa, fagote, violino, viola, violoncelo e contrabaixo em Mi Bemol Maior Opus 20 (1800) – mozarteano; Sonata para violino e piano em Fá Maior Opus 24 (1801) – Sonata Primavera; Sonata ao Luar Opus 27 (1801); Quartetos Opus 18 (1800) nº 6 em Si Bemol Maior – haydianos; lied Adelaide (1795); Sonata para piano em Ré Maior Opus 10  nº 3 (1798). O pré-romantismo começa com o Trio para piano e cordas em Dó Menor   Opus 1 nº 3 (1795); a Sonata para Piano Opus 2 nº 10; o Concerto para piano e orquestra nº 3 em Dó Menor Opus 37 (1800) . Foi neste mesmo período que Beethoven começou a inovar em algumas sonatas, colocando 4 movimentos ao invés dos 3 convencionais. Sua principal característica começou a ser o uso da tonalidade menor e mudanças abruptas de dinâmica, textura e atmosfera. 

 

Certamente o temperamento petulante e de muitos humores de Beethoven era explicado pela sua constante má saúde. Quando ainda adolescente, foi acometido por sucessivas doenças gastroentestinais, dores de cabeça, abcessos virulentos, infecções, pneumonia e bronquite. Aos 16 anos contraiu uma febre repentina, dificuldade respiratória e melancolia. Quando se fixou em Viena, em 1792, tinha muitas dores abdominais, câimbras, constipação e diarréia. Em 1795 sofreu um prolongado surto dessa cólica; em 1797 foi acometido pelo tifo. Foi nessa época que começou o seu problema de audição. Somente em 1801 confessou o seu problema de audição ao seu médico. Em 1802 tornou público o seu problema de surdez, comunicando o fato por carta aos seus dois irmãos. Ele chegou a pensar em suicídio, mas a sua música falou mais alto. 



Superou a crise e entrou no seu “Período Médio(1803 – 1817) , com composições de tom heróico, possantes e expansivas. Foi neste período que Beethoven quebrou seus vínculos com o classicismo. As obras que mais retratam esse período são: Sinfonia nº 6 – Pastoral – Opus 68 (1808); Concerto para piano nº 4 Opus 58 (1806) e nº 5 (Imperador)  Opus 73 (1809); Concerto para Violino Opus 61 (1806); Sonata Waldstein  Opus 53 (1804); Sonata Apassionata Opus 57 (1805). Em 1802, após um período de  isolamento, voltou ao vilarejo onde morava, decidido a não deixar que sua surdez o derrubasse. Apesar da surdez e das dores lancinantes de ouvido, continuava a escutar pelo menos minimamente e com esforço a amplitude da obra que compôs naquele período: 5 sinfonias, entre elas a espirituosa e iluminada 4ª; a dramática, magnética e fatídica 5ª; a 6ª - Pastoral – que é uma gloriosa suma de seu eterno amor  pela natureza, além de 7 sonatas para piano, 2 sonatas para violino, 5 trios para piano, 5 quartetos para cordas, 5 concertos e 1 oratório. 

 

Foi a sua Terceira Sinfonia – Heróica – Opus 55, esboçada e terminada em apenas 4 meses durante o verão e princípio do outono de 1803, que finalmente distanciou o seu estilo dos de Haydn e Mozart. Ele quis criar uma obra voltada ao transcendente tema do heroísmo – o triunfo sobre a dor, a comoção e a realidade da morte – e ao escrevê-la cada vez mais se convencia de que a obra deveria ser intitulada “Bonaparte”,  em homenagem ao empenho heróico que Napoleão estava realizando para moldar uma Europa liberalizada e totalmente nova. Mas quando, em 1804, Beethoven soube, por meio do seu amigo e aluno de piano Ferdinand Ries, que o general havia se declarado imperador da França, foi tomado por um acesso de  cólera e rasgou ao meio a página-título de sua partitura. Assim, foi reintitulada “Sinfonia Heróica” e inseriu a Marcha Fúnebre para mostrar a sua tristeza. Foi executada em público em fevereiro de 1805 e como era muito longa e inovadora, não foi bem acolhida pelo público. Embora sua música em geral não fosse bem acolhida, devido ao seu estilo inovador, Beethoven se tornara financeiramente bem sucedido e as pessoas o reconheciam e o saudavam calorosamente ao passar por ele nas ruas. 


Beethoven viveu numa época em que a França declarou guerra à dinastia  Habsburgo ((1792). Napoleão ocupou o Palácio Schonbrunn quando a ópera Fidélio (1805) fez sua estréia, em novembro de 1805 – essa ópera teve problemas inclusive com a censura e a reprovação de Napoleão. Beethoven reestruturou-a e a reapresentou em 1806. Sofreu nova revisão e somente em 1814 ficou terminada quando, finalmente, teve grande aclamação. Beethoven teve uma vida amorosa igualmente tumultuada. Apaixonava-se constantemente mas, devido às suas constantes mudanças de humor e à sua surdez, era rejeitado pelas mulheres. Foi no verão entre 1811 e 1812 que conheceu, em Viena, Antonie Brentano, esposa de um negociante de Frankfurt. Talvez tenha sido Antonie a quem Beethoven se refere como sua “amada imortal”. O ano de 1814 marcou o apogeu da aclamação popular de Beethoven. No início desse ano a Sétima Sinfonia teve sua primeira apresentação; a Oitava e a “Vitória de Wellington” foram executadas pela primeira vez em fevereiro; em maio, Fidélio foi ressuscitada; ele também compôs várias peças corais para comemorar a redivisão da Europa após a derrota de Napoleão.

 

Por outro lado, também em  1814 Beethoven foi obrigado a fazer sua última apresentação em público como pianista, pois sua audição se tornara muito fraca.  Nessa época a euforia do pós guerra havia sido rapidamente substituída por uma grave depressão econômica, que deixara Beethoven e praticamente todas as pessoas de Viena numa situação financeira seriamente comprometida. No ano seguinte, 1815, seu irmão faleceria de tuberculose, deixando seu filho Karl sob a tutela de Beethoven. De 1815 a 1820 ele brigou na justiça com a cunhada pela guarda do sobrinho. No decorrer da longa e onerosa briga, a produção musical de Beethoven foi reduzida a quase nada e sua saúde piorou bastante. A bajulação e quase idolatria ao compositor pelo pessoal de Viena entrou em declínio, pois as óperas de Gioacchino Rossini eram as preferidas do momento. Beethoven usava nessa época cornetas acústicas, assim como um lápis que ele segurava com os dentes, pressionando-o contra o piano para ajudá-lo a sentir suas vibrações. Sua surdez chegara a tal ponto que ele apenas podia ouvir o que sua mente imaginava ter ouvido.



Mas saiu dessas provações para escrever sua música mais profunda, que certamente reflete algo daquilo pelo que passara. Esse é o seu “Último Período” (1817 – 1827). Em 1819 começou a trabalhar na sua Missa Solemnis, que seria tocada quando o arquiduque Rudolf, seu aluno e amigo, seria empossado como arcebispo. O projeto levou dois longos anos e Beethoven não conseguiu que ela fosse tocada naquela ocasião. Após terminar a Missa Solemnis, começou a trabalhar na Nona Sinfonia Opus 125 (1824), que foi escrita para a Sociedade Filarmônica de Londres, com um coro de vozes gloriosamente entoando o poema de Schiller. Esse projeto estava em aberto desde a sua adolescência. Nenhum compositor jamais havia usado vozes dessa maneira numa sinfonia tradicional. Beethoven relutou em autorizar as primeiras apresentações tanto da Missa Solemnis como da Nona Sinfonia.

 

Ele inventou um plano esperto de vender “assinaturas” na forma de cópias manuscritas da Missa a várias pessoas importantes da Europa, como também ofereceu suas publicações a não menos de 7 editores para ver quem pagava mais por elas. O editor de sua confiança era a firma Schott & Sons, de Mainz. Em 07/05/1824 Beethoven deu um concerto de gala no Teatro Karntnertor de Viena, onde apresentou a Missa Solemnis e a Nona Sinfonia - “Coral”. No final da apresentação houve um delírio total da platéia, sem que Beethoven sequer percebesse. Uma cantora virou-o ao público para que ele recebesse os aplausos. Essa foi a última vez que pisou num palco. Em 1826 escreveu 3 quartetos para cordas por encomenda do príncipe Nicolas Galitzin. Nessa época estava no meio de uma de suas crises e em uma estação de águas, quando recebeu a notícia que seu sobrinho Karl havia tentado suicídio. Esse fato levou Beethoven a mudar sua atitude radical com Karl e com a vida. Resolveu, então, levar o sobrinho para ver a mãe e ficou hospedado na casa da cunhada por um tempo. Nessa época, mais precisamente em dezembro, escreveu um quinto quarteto e chamou o último movimento de “A Difícil Resolução”, um título involuntariamente irônico, já que ele não poderia saber que aquela seria a última obra completa que viria a finalizar. A última coisa que Beethoven fez, já em seu leito de morte, foi revisar a Nona Sinfonia.


Ele deixou rascunhado uma 10ª Sinfonia. As obras deste período são consideradas obras-primas de toda a História da Música. Ele deixou um legado de 138 composições extraordinárias e únicas às quais deu número de opus e mais outras 200 canções, cânones e danças que ele considerava obras menores. Sua vida foi moldada por tremenda paixão e constante sofrimento, uma vida também marcada por sua capacidade de extrair de algum lugar no âmago de seu ser composições imortais. Ele fez de sua música um instrumento de auto expressão. Talvez Beethoven nunca poderia ter expressado aquela profunda emoção subjetiva não fosse o destino tê-lo obrigado a sofrer crônicas e profundas dores físicas. Os testes de DNA feitos em seu cabelo, por uma equipe de médicos americanos renomados em 1996, acusaram uma quantidade muito grande de chumbo, o que pode ter sido causado pelo vinho que tomava todos os dias para amenizar as suas dores, como também pelos utensílios domésticos que usava. O excesso de chumbo no organismo causa o saturnismo, doença que provoca cólicas gastroentestinais, como também a surdez. No final, o que causou sua morte foi a hidropisia, que é o entumescimento causado pela retenção de líquidos, conhecida hoje como edema, e finalmente falência do fígado.    



Leia, também: 

Testamento de Heilingenstadt Ludwig van Beethoven (1770-1827)

 




Fontes  “Os Cabelos de Beethoven”, Russel Martin – Editora Globo (livro-base desta pesquisa)   

                 Dicionário Grove de Música (pesquisa de datas das obras)            

                 História da Música Ocidental – D.J.Grout e C.V.Palisca            

                 O Livro de Ouro da História da Música – O.M.Carpeaux             

                 Classical Music – P.G.Goulding            

                 História Universal da Música – K.Pahlen



 

Redação: Elza de Moraes Fernandes Costa