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Quem canta seus males espanta

Última modificação : Quarta, 29 Julho 2015 17:03



 

A canção como recurso terapêutico na reabilitação da fala e emocional

 

Quem canta seus males espanta...é uma das muitas verdades ditas nas frases populares. Afinal, o canto tem o poder de expressar os nossos pensamentos e emoções, resgatar momentos de nossa vida e dar um novo sentido a ela. Como recurso terapêutico, é também um grande aliado na reabilitação neurológica e emocional principalmente em pessoas que sofreram alguma lesão cerebral que afetou (total ou parcial) a capacidade de se expressar verbalmente.

 

Pensando na reabilitação da fala, podemos considerar que a canção conta com diversos elementos que também são encontrados na fala, podendo assim utilizá-la para reabilitar essa função. Veja as similaridades: são constituídos por diferentes timbres, altura, intensidade e duração dos sons e são percebidos em uma sequência onde o ritmo se refere à forma de como eles estão distribuídos no tempo.

 

O canto é capaz de auxiliar na cognição, respiração e motricidade da fala. Do ponto de vista neurofuncional, ambas são "responsáveis pela recepção e pelo processamento auditivo (fonemas, sons), visual (grafemas da leitura verbal e musical), da integridade funcional das regiões envolvidas com atenção e memória e das estruturas [...] responsáveis pelo encadeamento e organização temporal e motora necessárias para a fala e para a execução musical". (Muszkat, Correia e Santos, 2000, p.73).

 

O canto, além de utilizar os mesmos mecanismos neurofisiológicos responsáveis na produção da fala, é a extensão daquilo que sentimos, mas não conseguimos expressar em palavras. Ele possui um grande potencial na reabilitação emocional, pois a voz é também a expressão sonora da nossa personalidade, sendo assim, um dos recursos mais poderosos do ego (SCOTT, 1978). Katsh e Merle-Fishman (1985) já diziam que enquanto cantamos não nos expressamos através de um instrumento; nós nos tornamos o instrumento.

 

O canto na reabilitação emocional visa encontrar e desenvolver conteúdos internos do indivíduo e trazer novas ressignificações a ela, assim como melhorar a autoimagem, autoconfiança, autoexpressão e criatividade. Também possui um papel fundamental em resgatar memórias e emoções suprimidas e promover uma integração do self podendo permitir a revisão necessária da realidade individual do paciente, podendo assim recriar a sua história através do imaginário e reescrever ou ressignificar aquilo que precisa ser revivido para ser elaborado (BARCELLOS, 2009, p.165).

 

"Cantar pode proporcionar ao indivíduo uma oportunidade de expressar o inexpressível, de dar voz a um conjunto de sentimentos. Cantar músicas significativas frequentemente produz uma catarse, uma liberação da emoção, devido ao efeito da música, da letra e das memórias e associações conectadas com a canção". (AUSTIN, 2008, p.20).

 

Em musicoterapia, a canção pode ser usada de diversas maneiras de acordo com cada objetivo terapêutico. O que se deve considerar nesse processo é que o musicoterapeuta deve executar estratégias conforme o grau de dificuldade que o indivíduo possui na comunicação verbal decorrente da lesão cerebral e também na particularidade de cada um pois o canto, por manifestar o que está guardado no inconsciente do indivíduo, cada um irá produzir e expressar de acordo com suas experiências, sentimentos e gostos ao longo da vida.

 

Sendo assim, conclui-se que o canto é inerente ao ser humano e como terapia é um recurso de grande potencial na reabilitação da fala e emocional, pois cantar consiste na utilização dos mesmos recursos neurofisiológicos em que a produção da fala está envolvida, além de ser um meio facilitador em expressar seus sentimentos mais profundos e dar uma nova ressignificação a ela.

 

 

Por Michelle de Melo Ferreira

Artigo da Revista da CAEM No Tom, Ano 9 - nº 49 (2015) - Páginas 28 a 30

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AUSTIN, Diane. The theory and practice of vocal psychoterapy, Songs of the self. Philadelphia: Jessica Kingsley, 2008.

BARCELLOS, Lia Rejane Mendes. A música como metáfora em musicoterapia, 2009. Tese.

KATSH, S; MERLE-FISHMAN, CM. The music within you. New York: Simon & Schuster, 1985.

MUSZKAT, M; CORREIA, C.M.F. & CAMPOS, S.M. (2000). Música e Neurociência. Rev. Neurociências. 8 (2), 70-75.

SCOTT, JK. Voice teachers on voice (part 3), Music Education Journal, Gollobin, B.L. and White, H., Abril 1978.